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Entrevista da Semana

Betinho Curceli e sua grande história de vida

Cidade
Guaíra, 3 de dezembro de 2017 - 12h24

Roberto Andrade Curceli, 66 anos, casado com Terezinha Cavenaghi Moreira Curceli, pai de Larissa e Natália e avô de Gabriela e Marina, está aposentado depois de 38 anos trabalhando com a Educação.  A entrevista durou 47 minutos,  mas poderia se estender pelo dia inteiro, porque Betinho é uma pessoa culta, inteligente e que tem muitas histórias para contar.

 

Sempre morou em Guaíra?

Sempre! Me ausentei por quatro anos quando trabalhei em Ibitinga. Mas estudei aqui, no Francisco Gomes, fiz a tão temida Admissão, depois no Enoch. Tentei trabalhar e estudar em São Paulo, mas lá não conseguia estudar, porque eu trabalhava e dormia, aí vim embora!!! Prestei Mauá, tinha mais vagas do que candidatos, consegui entrar (risos). Fiz a Faculdade de Matemática, prestei concurso de ingresso, passei e escolhi a Escola Enoch Garcia Leal.

 

Como foi a sua infância?

Foi uma infância ótima! E meus pais fizeram de tudo para que essa infância se transcorresse bem. Sempre gostei de ganhar o meu dinheiro. Então, trabalhava com meu pai nas horas vagas, sempre depois de ter feito as lições da escola. E, com isso, aprendi muito. Nós tivemos o Hotel São Paulo, o Bar Odalisca, o Cine Bar, a Lotérica, o Posto de Gasolina, onde hoje é a empresa M&D, tivemos o Bar Ipê e, paralelo a isso, sempre estudando e me preocupando com o futuro.

 

E sua adolescência, como foi?

Eu sempre trabalhei muito! Na Padaria “Pão Gostoso” eu abria todos os dias às três horas da manhã. Ali eu servia lanche para os casais que saiam dos bailes. Antes disso, quando meu pai tinha o Hotel São Paulo, meu tio Clemente, irmão de meu pai, já engraxava sapatos. Então, eu, já usando a marcenaria, fiz uma caixinha de engraxate, comprei as latinhas de tinta, os panos e comecei engraxar os sapatos dos hóspedes do Hotel. E eles preferiam meus serviços (risos)! Assim, meu tio propôs uma sociedade. Eu teria que procurar, nas residências, pessoas que queriam engraxar os sapatos. Eu levava, meu tio fazia o serviço e eu entregava e recebia. Eu conheci Guaíra inteira deste modo. Sempre tendo meu dinheirinho.

 

Outras histórias para contar?

No meu primeiro ano de Faculdade, a amiga Jandaci Costa me perguntou se eu queria lecionar. Me indicou, então, o Seminário e eu fui procurar o Padre Luis, que estava precisando de um professor de Matemática. Fui e o Padre me perguntou se já havia lecionado… “Já”, respondi… E fiz uma mentirinha para o Padre. “Que séries?” e eu: “Todas”, foi a minha resposta já sabendo que não iria ficar com o emprego. Padre Luis mandou-me começar no outro dia. Quando cheguei, ele próprio estava na sala para assistir minha aula. Os alunos estavam aprendendo “frações”, então dei uma aula sobre frações e o Padre me aprovou!!!

 

 

Mais uma boa história de vida

Em Ribeirão Preto, o reitor da Faculdade era o Dr. Spinelli. Naquela época, eu estava inadimplente com a Faculdade e fui conversar com ele. Disse claramente que não queria parar de estudar e que não tinha como honrar os compromissos das mensalidades. Eu disse que estava dando aulas no Seminário… A esposa do Dr. Spinelli era muito católica… E procurei o Padre Luis e falei dos meus compromissos… O Padre disse que ali não havia pagamentos em dinheiro, “aqui” – disse o Padre – “posso pedir uma intercessão junto a Deus por você, rezar por você e pedir uma interferência para você continuar seus estudos”. Cheguei em Ribeirão e expus para a esposa do reitor a proposta do Padre. Ela, então, aceitou e disse que eu pagaria assim que pudesse. No segundo ano de Faculdade, peguei aulas na Vicencina e comecei a pagar a minha dívida. Era assim: o que eu podia dar, ela colocava em um envelope e assim foi até me formar. No dia da minha formatura, foi meu pai, minha mãe e a Terezinha. Entrei na sala do Dr. Spinelli para agradecer e, junto com canudo, ele me entregou um envelope com todo dinheiro que eu havia pago durante quatro anos. Ele disse que era um presente por eu ter mostrado a força de vontade e tê-los ensinado a coragem de ter estudado, trabalhado e honrado os compromissos firmados. Nem quis acreditar, sem eu saber ele estava fazendo uma poupança para mim. Comprei um carrinho e fui passar a Lua de Mel no Rio de Janeiro, por quase um mês. Sou eternamente grato a ele, a Deus e ao Padre Luis.

 

Mais uma historinha de vida.

Assim que me formei, fui escolher aulas em Ribeirão Preto. Só tinha aulas em Ibitinga. Apenas quatro aulinhas, mas fui. Lá, sobrava muito tempo e uma professora de Português, Dona Nereide Sampaio, uma senhora, pioneira dos bordados em Ibitinga, pensou em me ajudar e pediu que eu comprasse quatro malas e ela encheu-as de mercadoria para que eu começasse a trabalhar… Cheguei em Ribeirão Preto com duas malas debaixo do braço e uma em cada mão, e pensei “agora a Terezinha desiste de mim”, mas ela não desistiu, pelo contrário, me ajudou a vender as roupas, então vendíamos em Guaíra, Ribeirão, Rio Preto…

 

 

Você estudou, como a maioria faz hoje, viajando de ônibus para Ribeirão Preto?

Foi isso mesmo. Era uma delícia! Em determinado momento os alunos abriam as marmitas e vinha aquele cheiro gostoso de comida Árabe! Havia troca de misturas, nós éramos muitos amigos. Eram momentos curtos, mas muito intensos e assim nós procurávamos fazer com que estes momentos se tornassem eternizados. Era tudo muito respeitoso, muito amigável… Nem víamos a viagem terminar!

 

Hoje, você gostaria de voltar a lecionar?

Se fosse com os mesmos alunos que eu tive, sim! Se não fossem com aqueles alunos de outrora, não! Hoje os alunos representam o “novo”. Existe uma distância entre a minha idade e a deles. Eu sempre desejei que meus alunos aprendessem! Que estudassem! Que se formassem! Hoje a clientela é diferente: eles querem celular, querem se comunicar, faltam às aulas. Parece que não têm muito comprometimento com a matéria. Não se pode generalizar, mas é isso que se sente.

 

Por que escolheu a “Matemática?”

Eu me inspirei na Professora Heleninha. Uma pessoa maravilhosa, sensata e eu queria ser igual à Dona Heleninha, era o meu ideal de Professor de Matemática. Queria ter aquela linha, aquele perfil!

 

Você foi professor e Diretor de Escola, o que foi mais prazeroso?

Ser professor foi muito bom! Houve um momento que, na sala dos professores, eu tinha como colegas todos meus ex-professores. Fui o pupilo deles, fui aluno deles e, de repente, eu era colega deles: Dona Silvinha, Porfessor Silvio, Dona Ramisia, Verinha, Professor Pardinho, Professor Álvaro (este me marcou muito, uma pessoa íntegra, séria). Eu me sentia muito bem com todos eles. Como diretor de Escola, sempre procurei valorizar o funcionário ou o educador naquilo que eles tinham de melhor.  Sempre vendo o ser humano pelo lado positivo dele. Sempre elogiando com ações. Quando estava no Francisco Gomes, como diretor, por ocasião do desfile de 18 de maio, um grupo de professores quis fazer um carro alegórico, outros quiseram fazer outro carro, no final saíram sete carros para o desfile. Nesta época, minha filha Natália perguntou  em que carro iria. Eu disse:  nenhum! Você vai no chão, como Branca de Neve. É importante que, quando você está no poder, não deixe os que estão próximos a você também poderosos.

 

Se você não fosse Professor de Matemática, o que seria?

Seria Marceneiro! As medidas, os ângulos, para se fazer um tablado, um portão, uma cerca, um quadro, tudo isso é conta, é número, é vírgula, decimais, se não for assim, não bate as quinas, não encaixa. Existem os mecanismos necessários para se que tudo dê certo. Isto é matemática pura! A circunferência, o círculo, o “exato” me atraí, não gosto do “será que vai dar certo?”

 

Quais são seus hobbys?

Aos 12 anos de idade eu comecei a comprar livros na Livraria do Sr. Joel Pinheiro. Aos 13 e 14 já tinha lido tudo (!!!) do Monteiro Lobato. De lá para cá nunca parei de ler!  Leio todos os dias! Tenho um pacto com o pessoal da Casa de Cultura, sempre que chega uma doação, ou livros são adquiridos, eu vou ver o que me interessa e trago para ler. A Tatiana Vacaro, Dr. Fernando, são grandes doadores de livros para nossa biblioteca. Além de ler todos eles, ainda faço comentários com os doadores depois.  Atualmente estou lendo “O Historiador”, maravilhoso, que conta a história de Drácula, não como a conhecemos, mas a realidade. Além da leitura faço Sudoku, palavras cruzadas e jogo canastra com os amigos. Tem também as plantas que me ocupam 24 horas.

 

Amigos eternos!

Meu primeiro parceiro na canastra e caixeta foi o Nego, da Sadia, ele morreu; passei jogar com a Dona Olga Jabour, ela morreu; depois foi o pai do Renato, marido da Célia Nogueira, que também morreu, joguei também com a Dona Vera Vitalli, que também morreu… Depois disso parei de jogar porque ninguém mais queira jogar comigo (risos)! Isso também acontece também com os amigos: Dr. Orlando, Toninho da Janete, Teté Mendonça, Sr. José Antonio, Luis Afonso Pignanelli, todos amigos firmes e fortes, todos faleceram… Ninguém mais quer ser meu amigo (risos).

 

A companheira

Sou casado com a Terezinha desde que nasci! Ela é a rainha da situação. É ela e só ela. Nós chegamos a um ponto de amizade e namoro, que não sabíamos se gostávamos um do outro de tão normal que era. Então, fizemos um pacto de ficarmos um mês longe. Aconteceu que não aguentamos ficar longe. Quando terminou o mês sabático, demos nosso primeiro beijo, estava passando Romeu e Julieta de Franco Zefirelli, no Cine Guaíra. Mas era assim: na fileira do cinema em que nós sentávamos, sempre sentava a mãe, a tia, ela, eu e os primos todos.

 

Como é ser avô de duas netas lindas?

Como elas foram criadas longe de mim, em Paulo de Faria, quando nos encontrávamos, eu supria essa ausência com brincadeiras. Então, é assim que elas se lembram de mim: com uma sensação de um avô sério, mas brincalhão ao mesmo tempo. Eu pegava caixas de papelão, amarrava um na outra e ia puxando com elas dentro. Levava fantasias que o Penasforte me emprestava e fazia um circo com elas. Então elas amavam que eu estivesse lá porque ia ter circo, ia ter Bailarinas, Palhaços, Piratas, Pai Noel… Esse lado foi muito importante, porque deixei claro que a Felicidade vem se você correr atrás, tem que buscar, independentemente da situação financeira.

 

Seu Lazinho e Dona Leila

O aprendizado que um pai e uma mãe deixam para o filho é uma coisa natural, nata, é espiritual. Então eu me lembro do meu pai e da minha mãe sempre. Eles estão nas minhas atitudes, eles estão retidos numa parte do cérebro. Herdei do meu pai este meu bom humor que atenua qualquer situação mais tensa. Meu humor se adapta às situações porque as pessoas sentem-se bem com uma proposta alegre e tranquila. O amargo da vida não sai fácil, a felicidade sim, a amargura fica incrustrada, o bom humor vem para atenuar esta aflição. Meu pai era assim: brincalhão, humorista com os fregueses e sério dentro do lar. Às vezes me vejo nele. Protetor e amigo, não deixava nada acontecer nem comigo ou com meu irmão. Lembro que no Hotel São Paulo, onde moravam os professores: Dona Idelma, Dona Lurdinha, Sr. Reginaldo Alexandre, Prof. Pardinho, os Juízes de Direito e os Delegados de Polícia, meu pai mantinha esta equipe do lado da Avenida três e os viajantes ficavam do lado da Rua dez. Eu e o meu irmão éramos funcionários, minha avó, mãe do meu pai, lavava as panelas, eu lavava os talheres e conchas, meu irmão lavava louças e copos, tudo bem repartido. Trocávamos as roupas do quarto todos os dias. Lembro-me de uma atitude do meu pai, que foi um ensinamento que jamais vou esquecer: tinha duas laranjas, uma grande e uma pequena. Tanto eu como meu irmão queríamos a laranja grande. Ele mandou vir um saco de laranjas e sentou-se com minha mãe e foi descascando as laranjas para nós chuparmos. No começo, uma delícia! Na hora que chegou na metade do saco, eu já estava vomitando e isso serviu para me ensinar que entre o remédio e o veneno são visões que é somente uma questão de dose. Minha mãe dizia que se soubéssemos dosar, iríamos ficar curados, contentes, tranquilos, satisfeitos com o pouco que se têm. Não vão se saciar só porque a laranja é grande. É preciso ter cuidado com a ganância. As palavras voam, os exemplos permanecem. Meu pais foram meus exemplos.


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