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Entrevista da Semana

Vanessa Silvério: uma mulher de destaque

Cidade
Guaíra, 22 de julho de 2018 - 10h06

 

 

 

 

 

 

Vanessa Volpim Silvério, 38 anos, funcionária pública municipal, tem duas filhas: Jeniffer, com 18 anos e Beatriz de 9 anos. É casada com o Lupércio, trabalhador autônomo, sempre morou em Guaíra. Terminou o ensino médio e não deu continuidade aos estudos apesar de ter sido sempre uma excelente aluna. Simples, extremamente feminina, bonita e elegante, Vanessa é uma das pouquíssimas mulheres que “pilotam” um caminhão levando e trazendo as pesadas caçambas do DEAGUA por toda a cidade. O trabalho pesado não tirou nem um pouco a sua feminilidade, pelo contrário, está sempre com as unhas bem feitas, cabelo impecável, maquiagem e o mais bonito: seu sorriso, que somente as pessoas que fazem o que gostam podem exibir.

 

Antes de ser funcionária da prefeitura teve outras ocupações?

Sim, antes de ser efetiva fui trabalhar na creche, posteriormente, prestei concurso e passei, mas não fui chamada. Eu cheguei a trabalhar fora de nossa cidade, uma vez com a minha tia, lá para os lados de Goiás, mas não era o que eu queria.

 

Como começou a dirigir um caminhão tão grande e tão pesado?

Tudo começou quando eu entrei na Predilecta, foi lá que aprendi minha profissão, entrei no início da safra, o contrato era de apenas três meses, mas nosso encarregado percebeu que eu gostava de aprender e me perguntou se eu queria trabalhar com a retroescavadeira (é a ferramenta que pega lixo, cavouca buracos e vários outros tipos de serviços). Fiquei seis meses trabalhando na retro, porém, como eu trabalhava na parte de fora da indústria, conhecia muitos motoristas que trabalhavam nos caminhões e com eles fui aprendendo. Tinha um dos motoristas que faltava muito – o serviço dele era de jogar os milhos para poder produzir. Como não tinha quem o cobrisse, então por ser ali no mesmo setor que eu ficava, comecei a pegar o caminhão para fazer o trabalho que ele tinha deixado de fazer.

E como chegou ao DEAGUA?

Minha entrada no DEAGUA foi assim: quando estava na Predilecta, já tinha saído da retro e passado para o caminhão, quando estava trabalhando no caminhão, a prefeitura chamou o pessoal do concurso antigo e eu estava no meio, então, vim para a prefeitura. Eu sou funcionária pública, não sou funcionária do Deagua, antes de vir para cá trabalhei em vários setores, fui pulando de galho em galho. Nesse último mandato, de agora, entrou outro encarregado, novo diretor. Eu estava trabalhando na horta municipal e ele dirigia a Coordenadoria da Agricultura (Rafael Graner Lelis). Conversei com ele e me ofereci: “Olha, Rafael, estou sabendo que você dirige a pasta das estradas e, se caso você precisar de uma operadora ou motorista, estou aqui e entendo”. Então, ele conversou com o “Pezão”, que era o encarregado do pessoal e ele achou meio desproporcional por pensar que eu ficaria muito nas estradas; eu seria a única mulher no meio dos homens, foi mais uma proteção do que discriminação e ele não quis.

 

Então…

Um dia teve uma reunião na Câmara entre os novos diretores e o Rafael conversou com o Natal Pereira e descobriu que ele precisava de um motorista para o caminhão do DEAGUA. Ele me indicou: “Olha, estou com uma menina lá que disse que entende de caminhões, faz um teste com ela!” Logo o Natal me ligou e me pediu para fazer um teste. Com isso, fui e fiz lá uma hora de exame, no outro dia eu já estava trabalhando. Eu manobro o caminhão, engato as caçambas, tiro estas caçambas, vasculho para tirar os entulhos de dentro, faço tudo e não tenho ajudante.

 

Houve alguma discriminação por você ser mulher?

No começo, achava muito engraçado, porque quando eu chegava nas construções, os pedreiros, que 99,9% são homens, ficavam todos de boca aberta, espantados, ao ponto de ficarem paralisados e vinham me perguntar: “É você que está no caminhão?” E respondia: “eu mesma!” Não satisfeitos, falavam: “Nossa, mas seu marido deixa?” E eu: “Ele deixa, é uma profissão honrada como outra qualquer.”  Hoje é super normal a minha ida nas obras, eles já se acostumaram, pois já tem um ano que estou trabalhando na caçamba, peguei amizade com eles.

 

Então, a família acha normal?

Sempre fui muito exótica nos meus trabalhos, quando estava na Predilecta, ficava na parte externa junto com homens, então, sempre estive em um ambiente desse tipo, e meu esposo sempre levou numa boa, nunca brigamos por isso não.

 

É feliz com este trabalho?

Eu sou feliz sim, o trabalho é puxado, tem que gostar, porque eu pego das sete horas da manhã e vou até as seis horas da tarde; e, agora, nós estamos desfalcados, estamos trabalhando apenas com um caminhão. Trabalho sozinha, sem ajudante, então, é um serviço bem puxado.

 

O que as filhas acham?

Minhas filhas amam, mas a pequena no começo ficava um pouco receosa, porque pensou que os amiguinhos fossem brincar com ela. Só que ela viu que eles gostavam e achavam legal a mãe trabalhar no caminhão e aí ela ficou toda envaidecida. E a mais velha também, os amigos dela ficam admirados, me dão os parabéns. Ainda brinco com elas: “se vocês forem um grão do que a mãe de vocês é, serão grandes pessoas.”

 

Como as mulheres reagem?

Muito bem. Tem muitas mulheres que, ao me verem na rua com o caminhão, me param e me parabenizam. O interessante é que quando eu entrei na Predilecta, fui a primeira mulher a trabalhar com a retroescavadeira, e depois no caminhão também e como peguei amizade lá, quando sai da retro eu já passei para uma amiga minha.

 

Na prefeitura tem mais mulheres motoristas?

Na prefeitura não tem outra mulher motorista de caminhão, tem a Rose, mas ela é da Seleta. Agora, na prefeitura, em equipamento bruto, não tem. Antes tinha a Daniela, que estava trabalhando no ônibus escolar, porém de equipamento assim não.

 

Bom, você já trabalhou com a retroescavadeira, com caminhão, faltou alguma coisa?

(Risos) Quando eu estava trabalhando no bosque Municipal, lá manejava um tratorzinho cujo objetivo era tirar os lixos. Na época, era o Senhor Getúlio, o chefe do almoxarifado que percebeu meu empenho e me chamou para lá; a Patrícia, na época, fazia parte do almoxarifado e ela sabia que íamos receber uma retroescavadeira nova do Estado. E ela queria me dar a oportunidade, mas acabou não vindo esse equipamento.

 

Como é a sua carteira da CNH?

A minha carteira é “D”. Isso significa que eu posso dirigir ônibus e caminhão; carreta não, pois teria que ter carteira “E”. O ônibus para transportar pessoal eu também não posso, porque preciso ter o curso. Quando fui tirar minha carteira, estava na Predilecta trabalhando na retro, logo comecei a trabalhar no caminhão, tive que tirar a carta “D”. Então, trabalhava apenas dentro da empresa, mas eles precisavam de alguém para sair da empresa. Eles me ofereceram uma ajuda para tirar minha carteira, que se eu quisesse iam descontando mensalmente do meu salário as parcelas para não pesar. Fiz o exame e passei de primeira.

 

Agradecimentos

Eu quero agradecer, em primeiro lugar, a Deus, à minha família, minhas filhas e, principalmente, ao meu esposo, porque se ele não colaborasse, não confiasse, não me entendesse (porque ciumento ele é muito), não estaria bem como estou, mas ele abre mão um pouco desse ciúmes, para não me barrar. Ele me apoia. Eu acredito que abri o caminho para novas mulheres trabalharem nessa área.


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