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A importância da frustração na infância

Opinião
Guaíra, 10 de julho de 2018 - 09h33

Por Marcelo Borba de Freitas

Ray Charles foi um músico norte-americano, pianista e cantor de blues, soul e jazz. Aos 5 anos de idade foi acometido de glaucoma e dois anos depois já estava completamente cego. Ainda muito jovem, aprendeu a se guiar sem a necessidade de um cão guia ou bengala, apenas pelo som da sola de seus sapatos. Certamente uma das causas da independência de Ray foi a forma como sua mãe, Areta Williams, uma lavadeira pobre e analfabeta, que o criou não o super protegendo e agindo sempre como se ele não fosse diferente das outras crianças da comunidade rural em que viviam, em Greenville, no interior da Flórida.

Em uma tocante cena do filme biográfico “Ray”, de 2004, lançado poucos meses após a sua morte, e que conferiu o Oscar de melhor ator a Jamie Foxx, Ray Charles ainda menino, encontra-se na cozinha de sua casa, poucos dias após ter perdido a visão, sem saber exatamente em que cômodo estava e vai caminhando de encontro ao fogão a lenha. Quando está prestes a se queimar, de repente se detém ao perceber que há ali uma chaleira quente, apenas pelo barulho da água fervendo. Sua mãe, que estava também na cozinha e permanecera o tempo todo o observando, abraça-o chorando e diz ao filho, em meio a soluços, que ele não a teria por toda a vida e como não enxergava, deveria procurar aguçar sua audição, tornando-a sua aliada– o que certamente o ajudou, anos mais tarde, a tornar-se um grande músico, com reconhecimento internacional.

É claro que os pais não devem impingir sofrimentos aos seus filhos, mas em alguns casos, movidos pela incapacidade de suportar a frustração dos mesmos, muitos passam a superprotegê-los, esforçando-se para poupá-los de problemas, dificuldades e tudo fazendo para propiciá-los um ambiente em que não sejam submetidos a dor ou frustrações e ficando sempre muito magoados com o amigo de seu filho quando o rejeita, com a professora que o repreende ou com a namorada que o faz sofrer.

Crianças inspiram cuidados e protegê-las faz parte da natureza e do instinto dos pais. Contudo não se deve exagerar, superprotegendo-as, sobretudo à medida que vão crescendo.  É necessário buscar um equilíbrio para que não se faça da tentativa de evitar sofrimentos, algo que irá paradoxalmente criar sofrimento no futuro.

A punição com castigos corporais não ajudam a desenvolver a independência e autonomia, no entanto, a super proteção pode ser também muito nociva, à medida que muitas vezes gera crianças e adolescentes ansiosos, inseguros e depressivos. Filhos de pais superprotetores crescem com dificuldades em lidar sozinhos com seus problemas por não terem aprendido a resolvê-los de forma independente e podem inclusive apresentar incapacidade para desenvolverem uma autoestima saudável.Cedo ou tarde somos expostos a inúmeras frustrações e problemas em nossa vida e aquelas crianças que foram muito poupadas, são exatamente as que mais sofrem diante das situações adversas.

Os pais devem ter em mente que frustrações podem ser muitas vezes oportunidades de crescimento interior e pessoal. Por isso é muito importante deixar o filho cair e aprender com os tombos. Quando os pais são muito preocupados e estão sempre ao lado das crianças e fazem de tudo por elas, inclusive fazem várias coisas no lugar delas, tendem a promover uma sensação de incompetência na criança. É por isso que é muito importanteàs crianças e aos adolescentes tentarem encontrar as respostas e soluções para os seus problemas sozinhos, exercitando suas próprias competências e capacidades.

Se quisermos ajudar uma borboleta sair de seu casulo, abrindo-o bem delicadamente com um bisturi, para que essa mariposa não tenha que sofrer e se esforçar para rompê-lo, em vez de a ajudarmos, certamente a impediremos de alçar voo.  A força que a borboleta faz para romper o casulo da crisálida, inundando suas asascom hemolinfa e as expandindo, é que lhe possibilita finalmente libertar-se e voar como inseto adulto. Igualmente com os nossos filhos, precisamos entender que amar é prepará-los para a vida. Poupar uma criança excessivamente é tirar dela a chance de se desenvolver, de descobrir maneiras para resolver seus pequenos problemas e de estar em contato com a vida como ela é.

Uma das principais tarefas dos pais é preparar as crianças para serem adultos independentes, autônomos, resilientes, com autoestima saudável e autoconfiança. Por isso devem agir de forma que todas as conversas, todos os cumprimentos de combinados e todos os não sejam ditos sempre com equilíbrio, com amor e com uma boa dose de autoridade, determinando coisas e cobrando para que sejam efetivamente cumpridas.


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Marcelo Borba de Freitas

Marcelo Borba de Freitas é historiador e gestor escolar   

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