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Idealizações

Opinião
Guaíra, 4 de julho de 2018 - 10h24

Por Pâmela Pereira Inomata

Existe uma necessidade humana de criar um ‘eu’ ideal, aquele que será de todo desejado e estará acima de qualquer possibilidade de ser alcançado.

Facilmente detectamos a presença da idealização em vários momentos da nossa vida: a paixão é um exemplo. A pessoa apaixonada está sob o domínio de certo estado emocional em que o objeto da paixão é supervalorizado.

Na realidade, a idealização consiste em atribuir, ao outro, qualidades de perfeição, percebendo-o como alguém que possui somente características positivas. É, portanto, uma forma de perceber a quem se ama ou se admira de forma incompleta e irreal, colocando-o num lugar impossível de ser alcançado.

Não basta ser bom, tem de ser ótimo! E o assunto do momento é a Copa do Mundo, competição que evidencia a idealização de um jogador brasileiro, Neymar, que é certamente um dos assuntos mais comentados atualmente.

Muito é dito sobre ele, sobre o seu futuro, sobre suas habilidades; que variam entre os termos: craque, gênio, fenômeno, “cai-cai”, “mascarado”. Ora, dificilmente alguém dúvida do talento natural do atleta, mas será que apenas isso explica o patamar que Neymar vem atingindo?

A história do futebol é permeada por casos de grandes promessas que, ou não conseguiram se destacar, ou simplesmente não chegaram ao nível que se esperava, por inúmeros motivos. Logicamente existem as particularidades de cada atleta, mas é possível fazer uma reflexão, ainda que baseada em hipóteses.

A dificuldade é com a realidade das coisas, que traz as contradições existentes nos sentimentos e nos desejos. Assim como numa relação amorosa: na medida em que conhecemos mais o outro, e nós mesmos na companhia deste outro, descobrimos aspectos que não são tão bonitinhos como esperávamos. Então, o grande desafio é conseguirmos manter nosso amor em contato com o nosso ódio e frustração e suportar sentir tudo isso pela mesma pessoa.

Neymar recusou uma proposta milionária do Chelsea para continuar no Santos, onde dizia ser feliz. Outra atitude importante envolve os pais de Neymar, que insistiram na permanência do atleta na escola, muitas vezes deixada em segundo plano. Houve a preocupação não apenas com o atleta, mas com a pessoa, o cidadão.

Sem conhecer os pormenores do caso, o que parece é que uma das principais dificuldades que acometeram o jogador foi a administração e tolerância às frustrações. Em meio a esse contexto, é observado as dificuldades para lidar com faltas violentas, assedio da imprensa, erros próprios cometidos, comentários infelizes, etc.

É só podendo vivenciar sentimentos contraditórios pela mesma pessoa, as frustrações; que conseguiremos expandir nossa mente e nossa capacidade de sentir e de simbolizar, assim como ficaremos mais tolerantes conosco e com o outro pelas nossas humanidades e imperfeições.

Portanto, quanto maior for a capacidade para tolerar as frustrações e aceitar que as pessoas, as profissões, as relações, os planos, são constituídos de elementos positivos e negativos, de aspectos bons e maus, mais madura a pessoa estará e, consequentemente, necessitará menos de idealizações. O bom já será suficiente, não precisará do ótimo.


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Pâmela Pereira Inomata

Pâmela Pereira Inomata – Psicóloga – CRP 06/103502 – Clínica São José – Rua 16, 605 – Centro (esquina Avenida 13).

3331-2675/ 99979-0895 / 98150-3995

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