É fascinante a nossa capacidade de transformar qualquer episódio do Carnaval em ato revolucionário.
Basta um enredo polêmico, uma apuração tensa e pronto: temos analistas geopolíticos de arquibancada, estrategistas institucionais de sofá e patriotas de quarta-feira de cinzas decretando o “despertar do novo Brasil”. A queda de uma escola de samba vira símbolo da restauração moral da República. Quase dá vontade de propor que a próxima reforma administrativa seja decidida no quesito fantasia.
É curioso. Quando o assunto é estrutural, a conversa é morna. Mas mexa com o samba-enredo e o país vira um tribunal constitucional com glitter.
Comemoramos derrotas na avenida como se fossem vitórias históricas. Vibramos como se tivéssemos corrigido o déficit público no grito. Compartilhamos indignação como se ela, por si só, asfaltasse estradas, equilibrasse contas ou elevasse índices educacionais.
Mas não. Era só a apuração.
Há uma espécie de conforto psicológico em brigar pelo que é vistoso. O espetáculo é mais fácil de digerir que a planilha. A alegoria é mais emocionante que a auditoria. A bateria é mais contagiante que o debate sério sobre gestão.
E assim seguimos: especialistas em comissão de frente, mas alérgicos a comissões parlamentares; atentos à harmonia da escola, mas distraídos com a desarmonia estrutural do país.
Nada contra o Carnaval. Ele é parte da nossa identidade, do nosso imaginário, da nossa criatividade coletiva. O problema não está na festa. Está na substituição do essencial pelo episódico. Está em tratar o barulho como se fosse transformação.
O Brasil não muda porque uma escola perdeu pontos. O Brasil muda quando prioridades deixam de ser figurino e passam a ser fundamento.
Enquanto nos dividimos apaixonadamente por enredos, decisões muito menos alegóricas seguem seu curso. E essas não vêm com samba no pé nem jurado com plaquinha.
Talvez o nosso maior talento nacional não seja a criatividade, essa é inegável, mas a habilidade de nos entretermos com intensidade enquanto o que realmente importa aguarda, pacientemente, na concentração.
No fim das contas, o desfile acaba. A avenida esvazia. As luzes se apagam.
E o Brasil real continua ali, esperando que, um dia, a nossa energia cívica seja menos carnavalesca e mais consequente.
Até lá, seguimos especialistas em fantasia, mas ainda aprendizes em prioridade.

