Há uma cena famosa do Titanic que atravessou o século. O navio inclinado, a água avançando e, no meio do caos, músicos seguem tocando como se a melodia pudesse enganar o destino. Não era coragem. Era negação. Uma tentativa elegante de fingir que o inevitável não estava acontecendo. E, gostemos ou não, o Brasil anda se parecendo demais com essa orquestra.
O navio range, as luzes piscam, os alertas são claros. A economia dá sinais de exaustão, a política se move em círculos, a violência banaliza a vida, a corrupção já nem escandaliza. Ainda assim, seguimos tocando. Rimos de memes, brigamos por times políticos como se fossem clubes de futebol e chamamos de normal aquilo que deveria nos causar indignação diária.
Há quem diga que reclamar não resolve, que sempre foi assim, que o brasileiro é resiliente. Mas resiliência não é aceitar o absurdo com um sorriso no rosto. Resiliência é reagir, ajustar o rumo, exigir mudanças antes que a água chegue ao pescoço. O problema é que, enquanto alguns gritam por botes, muitos preferem dançar no convés.
O mais assustador não é o risco do naufrágio. É a naturalização do desastre. É tratar o caos como paisagem, a injustiça como rotina, o descaso como detalhe. É achar que não é comigo até o momento em que é. No Titanic, também havia quem acreditasse que o problema estava apenas em outra parte do navio.
Não faltam músicos. Falta silêncio para ouvir o barulho do casco se rompendo. Falta coragem para interromper a música, encarar a realidade e assumir que algo precisa mudar agora, não depois. Fingir normalidade nunca salvou ninguém. No máximo, embalou os últimos minutos antes do fundo do mar.
A pergunta que fica é simples e incômoda. Vamos continuar tocando, sorrindo e aplaudindo, ou finalmente largar os instrumentos e procurar uma saída? Porque, diferente do cinema, na vida real não há trilha sonora heroica para quem escolhe ignorar o afundamento.
O problema é que a água já invadiu o porão faz tempo, e seguimos discutindo a música no salão.

