Nunca estaremos 100% certos na versão de alguém. E não por falta de informação, mas porque todo acontecimento nasce, no mínimo, com dois lados, e cada lado, por sua vez, se desdobra em múltiplas versões. A realidade não se apresenta em linha reta. Ela se fragmenta no instante em que é vivida.
Entre o fato e o relato existe um território invisível onde percepção, emoção e interesse reorganizam o ocorrido. Mesmo pessoas que presenciam o mesmo acontecimento constroem narrativas distintas, não porque alguém esteja necessariamente mentindo, mas porque cada olhar carrega sua própria história, seus valores e seus limites.
Vivemos cercados por versões que disputam atenção e legitimidade. Escolhemos nelas conforto, identificação ou pertencimento. E quanto mais uma narrativa confirma aquilo que já acreditamos, mais facilmente a chamamos de verdade. É assim que o ilusório coletivo se forma, não pela ausência de fatos, mas pelo excesso de certezas.
A linguagem não apenas comunica. Ela seleciona. Ao contar, cada lado destaca o que lhe parece essencial e silencia o que ameaça a coerência do próprio discurso. O resultado é que o fato original se dilui em camadas de interpretação, e a verdade passa a ser menos um ponto fixo e mais um campo de disputa.
Talvez o maior erro esteja em buscar uma versão definitiva, como se ela pudesse existir. A maturidade intelectual começa quando aceitamos que compreender exige ouvir mais de um lado e desconfiar inclusive do nosso. Questionar não é negar o fato, mas reconhecer que ele é maior do que qualquer narrativa.
O que existe entre o fato e a versão é o espaço onde se decide se pensamos ou apenas concordamos. Em tempos de certezas prontas, ocupar esse espaço é um ato de lucidez e, cada vez mais, de coragem.

