Existe um abismo silencioso entre saber juntar letras e compreender o que elas dizem. Esse abismo atende pelo nome de analfabetismo funcional e explica boa parte dos ruídos do nosso tempo: textos mal interpretados, opiniões baseadas em manchetes tortas e decisões tomadas sem entendimento real dos fatos. Não é falta de acesso à leitura. É falta de compreensão. E isso cobra um preço alto da sociedade.
É justamente por isso que os números recentes da educação municipal de Guaíra merecem mais do que aplausos protocolares. Quando quase a totalidade dos alunos do segundo ano do ensino fundamental demonstra fluência leitora, estamos diante de algo que vai muito além de um índice bonito em relatório. Estamos falando de crianças que leem e entendem. Que não apenas decifram palavras, mas captam sentidos, ideias e intenções.
Em um país onde milhões de adultos tropeçam em textos simples, contratos básicos e informações essenciais, garantir que mais de 90% das crianças atinjam a fluência leitora logo no início da vida escolar é uma virada de chave. É a diferença entre formar repetidores de frases prontas ou cidadãos capazes de interpretar o mundo com autonomia. É atacar o problema pela raiz, antes que ele se transforme em ruído social, intolerância e manipulação.
O analfabetismo funcional não nasce do acaso. Ele é fruto de negligência histórica, de políticas interrompidas e da falsa ideia de que ler é apenas pronunciar palavras em voz alta. Guaíra mostra que é possível seguir outro caminho. Um caminho onde a leitura é ferramenta de emancipação e não apenas requisito burocrático.
Essa conquista precisa ser defendida, valorizada e ampliada. Porque cada criança que aprende a ler com fluência hoje é um adulto amanhã que não engole vírgulas, não distorce sentidos e não aceita qualquer discurso sem questionar. E uma cidade que forma leitores de verdade constrói, página por página, um futuro mais lúcido, mais crítico e infinitamente mais justo.

