O BRASIL DO QUASE

Editorial
Guaíra, 29 de maio de 2026 - 13h42

Existe um antigo paradoxo filosófico que ajuda a explicar o Brasil com uma precisão desconfortável. Nele, um coelho tenta alcançar uma cenoura, mas há um detalhe cruel: a cada intervalo de tempo, ele percorre apenas metade da distância que ainda falta. Quando avança metade do caminho, sobra outra metade. Depois, metade da metade. Depois, metade de novo. O coelho corre sem parar, aproxima-se cada vez mais do objetivo, mas teoricamente jamais consegue alcançá-lo.

O Brasil transformou esse paradoxo em método de funcionamento.

A cada eleição, surge a promessa de que agora a cenoura será finalmente alcançada. O governo anuncia reformas históricas, programas revolucionários, investimentos bilionários e pactos nacionais capazes de mudar o país. O discurso é sempre grandioso, urgente e embalado por palavras bonitas. Dizem que estamos perto de resolver a saúde pública, perto de melhorar a educação, perto de modernizar a infraestrutura, perto de reduzir desigualdades históricas, perto de entregar segurança, perto de simplificar impostos, perto de destravar o crescimento.

O problema é que o Brasil vive eternamente “perto”.

A fila do hospital diminui um pouco, mas continua desumana. A violência muda de endereço, mas segue aterrorizando famílias. A educação moderniza equipamentos enquanto milhões ainda saem da escola sem domínio básico da leitura e da interpretação. A economia cresce nos gráficos enquanto o cidadão continua parcelando supermercado. O saneamento avança lentamente enquanto brasileiros convivem com esgoto a céu aberto como se isso fosse paisagem normal.

O país anda, mas anda sempre pela metade.

E talvez o mais perigoso seja perceber que parte da política nacional aprendeu a sobreviver exatamente assim. Resolver problemas de forma definitiva gera menos capital político do que mantê-los em estado permanente de promessa. Uma solução encerra discurso. Já um problema parcialmente resolvido alimenta campanhas, entrevistas, inaugurações, anúncios e palanques durante décadas.

O Brasil não administra soluções. Administra expectativas.

Existe uma obsessão nacional por lançar programas antes de apresentar resultados. Primeiro vem o slogan, a identidade visual, a propaganda emocionante, o vídeo institucional, a coletiva de imprensa e a placa da obra. Muitas vezes, a placa chega antes da própria obra. Governos aprenderam que a sensação de movimento produz mais impacto eleitoral do que a transformação silenciosa da realidade.

E assim o cidadão continua correndo atrás da cenoura.

Corre atrás de um SUS que funcione plenamente. Corre atrás de escolas capazes de preparar crianças para um mundo competitivo. Corre atrás de transporte digno, segurança verdadeira, infraestrutura eficiente e oportunidades reais de ascensão social. A população corre enquanto escuta que falta pouco. Sempre falta pouco.

O mais cruel é perceber que o brasileiro começou a normalizar essa lógica. Acostumou-se a agradecer pelo básico. Acostumou-se a tratar obrigação pública como favor político. Quando uma obra termina no prazo, parece milagre. Quando um serviço funciona adequadamente, vira manchete. A régua da dignidade foi sendo reduzida lentamente até transformar eficiência em exceção comemorada.

Enquanto isso, Brasília segue especialista em produzir sensação de avanço. O país coleciona planos nacionais, metas ambiciosas, discursos técnicos e promessas modernas, mas convive com problemas que atravessam gerações como heranças permanentes. Muda o governo, muda o partido, muda o marketing, muda o nome do programa. A cenoura continua no mesmo lugar.

Talvez porque exista uma verdade desconfortável que poucos têm coragem de admitir: há setores da política que dependem da eternização controlada dos problemas. Afinal, um povo que finalmente alcança a cenoura deixa de correr desesperadamente atrás de salvadores.

Talvez o maior problema do Brasil não seja a distância até a cenoura. Seja descobrir quantos construíram a própria sobrevivência política sobre o fato de ela nunca ser alcançada.


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