O INVERSO DO AVESSO

Editorial
Guaíra, 18 de março de 2026 - 09h08

Alguma coisa saiu do lugar na sociedade. E não foi pouco.

Durante muito tempo, a vida seguiu uma lógica simples: os mais velhos ensinavam, os mais novos aprendiam. Adultos eram referência. Crianças eram formação. Era assim que se transmitiam valores, limites, caráter e visão de mundo.

Mas algo começou a virar do avesso.

Hoje vemos adultos colando retratos de uma criança influenciadora na parede do quarto. Gente grande carregando totens de papelão para levar à formatura. Adultos se comportando como fãs diante de alguém que mal terminou a infância.

Não se trata aqui de julgar uma criança. Criança faz o que criança faz: brinca, se diverte, repete o que o mundo oferece. O problema não está nela.

O problema está nos adultos.

Quando uma criança de oito anos passa a influenciar o comportamento de gente madura, não estamos diante de um fenômeno curioso da internet. Estamos diante de um sintoma social.

Porque ali a lógica se rompe.

Quem deveria estar formando passa a imitar.

Quem deveria orientar passa a seguir.

Quem deveria dar exemplo passa a aplaudir qualquer coisa que gere curtida.

A sociedade sempre teve ídolos. Isso não é novidade. O que é novo é a superficialidade da admiração. Hoje não se admira mais caráter, trajetória ou contribuição. Admira-se visibilidade.

Confundimos fama com grandeza.

Seguidores com autoridade.

Curtidas com respeito.

E assim, pouco a pouco, vamos naturalizando uma inversão silenciosa de valores.

Mas há uma verdade antiga que continua de pé, mesmo em tempos de algoritmo. Uma frase repetida por gerações que talvez explique tudo o que estamos esquecendo:

“O exemplo não é a melhor forma de influenciar outras pessoas. É a única.”

Influência de verdade nunca nasceu da tela. Nasceu da convivência. Do pai que trabalha. Da mãe que educa. Do professor que exige. Do adulto que vive de forma digna o suficiente para ser observado.

Quando adultos passam a seguir crianças como referência, não estamos vendo o nascimento de novos líderes.

Estamos vendo o enfraquecimento das referências.

Porque uma sociedade onde os adultos já não sabem mais quem deve dar o exemplo não está apenas confusa.

Ela está vivendo algo ainda mais profundo.

Ela não está apenas do avesso.

Ela chegou ao inverso do avesso.


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