Nem sempre o problema começa em quem fala. Muitas vezes, ele se instala em quem escuta. No riso discreto, no silêncio conveniente, no olhar que concorda sem dizer nada. Assim a cumplicidade se forma, silenciosa, eficiente e cara.
Você conhece o tipo. Aquele indivíduo que prefere comentar de lado, quase sempre acompanhado. O veneno escorre em doses pequenas, embalado como ironia, disfarçado de comentário casual. E quase sempre há alguém por perto, ouvindo, tolerando, legitimando.
É aí que o risco aparece. O comentário maldoso só ganha força quando encontra plateia. Um riso breve basta. Um silêncio autoriza. Quem acompanha não apenas assiste, participa. A cumplicidade não pede palavras, exige adesão.
Mas todo cuidado é pouco, pois essa cumplicidade não protege ninguém. O veneno circula. Troca de alvo. Quem ri hoje vira assunto amanhã. Quem consente agora entra na pauta depois. O hábito de ferir não constrói alianças, organiza uma fila.
Muitos acreditam estar seguros por se manterem do lado certo. Engano recorrente. Quem normaliza a desqualificação do outro aprende, cedo ou tarde, que o critério nunca é justo, apenas conveniente.
Há ainda o peso do costume. Repetir o riso, tolerar o comentário, fingir que não ouviu. Cada gesto reforça o padrão. E quando se percebe, já não há espaço para surpresa. A cumplicidade já se consolidou.
No fim, o veneno não respeita alianças. Quem ri hoje, amanhã é pauta. Quem aplaude, depois é alvo. Comentários maldosos não criam vínculo, criam rotatividade de vítimas. E quando a plateia acaba, sobra apenas quem espalhou o veneno e quem acreditou que apenas assistia.

