Há verdades que incomodam justamente porque são simples demais para serem ignoradas. Uma delas é a velha máxima de que o barato sai caro. Ainda assim, seguimos fingindo surpresa quando a conta chega. E ela sempre chega.
Vivemos a contradição de celebrar a água mais barata enquanto fechamos os olhos para canos velhos, estruturas sucateadas e uma autarquia que opera no limite do fôlego. É como se o preço baixo fosse um troféu, mesmo quando o sistema que sustenta esse orgulho dá sinais claros de exaustão. A pergunta que precisa ser feita não é quanto custa a água hoje, mas quanto custará a sua falta amanhã.
Pensar apenas no valor da tarifa é um conforto perigoso. Ele anestesia o debate e empurra decisões difíceis para frente, como se o tempo fosse um aliado infinito. Não é.
Sem recursos, não há manutenção. Sem manutenção, não há qualidade. E sem qualidade, o serviço público deixa de cumprir sua função essencial: servir à população com dignidade e segurança.
Talvez o maior erro esteja em confundir preço baixo com justiça social. Justiça, neste caso, não é pagar menos agora para perder tudo depois. Justiça é garantir que o serviço exista, funcione e continue sendo público. Porque quando a autarquia quebra, quem paga a conta não é o discurso. É o cidadão.
Pensar fora da caixinha exige coragem para encarar o óbvio. Água não é apenas uma mercadoria. É infraestrutura, planejamento e responsabilidade. Um preço justo hoje pode não agradar aos ouvidos, mas pode ser a única garantia de que amanhã não estaremos discutindo quem deixou o copo vazio.

