A Quarta-feira de Cinzas chega sem pedir licença.
Ela apaga o som, varre o brilho, dissolve a fantasia. Onde ontem havia euforia, hoje há chão. Onde havia promessa de alegria infinita, resta a realidade nua, firme, incontornável.
E é exatamente aí que a vida começa de verdade.
Passamos dias esperando o próximo evento, o próximo anúncio, o próximo discurso salvador. Celebramos narrativas, compartilhamos indignações, escolhemos lados. Mas quando a festa termina, quem enfrenta o boleto, a insegurança, o serviço precário, a frustração acumulada é o cidadão comum.
Alguém afirmou que a política é uma guerra e cada buraco é uma trincheira. Pode parecer exagero, mas basta abrir as redes, assistir a um debate ou acompanhar qualquer votação polêmica. A lógica do confronto domina. Atacamos antes de ouvir. Reagimos antes de pensar. Cancelamos antes de dialogar.
E o mais grave é que nos acostumamos.
Transformamos divergência em rivalidade. Crítica em ofensa. Debate em duelo. Passamos a viver abaixados, defendendo posições como se estivéssemos sob bombardeio constante.
Só que trincheira não constrói ponte. Não abre estrada. Não levanta escola. Não melhora hospital.
Trincheira protege, mas também paralisa.
É nesse ponto que muitos olham para fora e perguntam se precisamos de um líder no estilo de Nayib Bukele, alguém que concentre poder, corte amarras e imponha ordem. A sedução é compreensível. Em tempos de confusão, firmeza encanta. Em tempos de desorganização, autoridade parece solução rápida.
Mas nenhuma sociedade se fortalece delegando integralmente sua responsabilidade. Um líder pode empurrar a máquina. Pode acelerar decisões. Pode impor ritmo. Mas não substitui maturidade coletiva. Não cria consciência por decreto.
Se a população apenas assiste, critica e espera, troca um ciclo de frustração por outro.
A transformação real exige ação. Exige participação. Exige cobrança firme e envolvimento constante. Exige abandonar a postura de torcida e assumir a postura de dono.
E isso tem nome.
Coragem.
Coragem para sair da trincheira mental. Coragem para cobrar sem fanatismo. Coragem para admitir erros. Coragem para agir mesmo quando é mais confortável reclamar.
A Quarta-feira de Cinzas não encerra apenas uma festa. Ela confronta. Ela expõe. Ela pergunta.
Quando o confete some e o silêncio se instala, não adianta esperar o próximo Carnaval político.
Ou assumimos o protagonismo da mudança, ou continuaremos vivendo de festa em festa, esperando que alguém faça por nós o que só nós podemos fazer.

