Entrevista da Semana

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Guaíra, 3 de setembro de 2017 - 10h59

Cida Duarte: Amor incondicional pelos animais

Nossa entrevistada dessa semana é Aparecida Duarte – a Cida dos cachorrinhos – funcionária da limpeza pública, terceirizada, 53 anos, solteira e apaixonada pelos animaizinhos abandonados.

Cida é cuidadora de 40 cães e 90 gatos. Além disso, ela ama o que faz! Gosta de ver os bairros limpos, bem cuidados e gosta de trabalhar sozinha.  Ultimamente está varrendo o Bairro Portal do Lago.

Como começou esta paixão pelos bichinhos?

Minha família, por parte do meu pai, sempre gostou de animais. Sempre convivi com patos, galinhas, gatos, cachorros, na cidade de Santos, onde morei. Dizem os familiares que eu puxei pela minha avó, que gostava também muito dos bichos. Mas, a coisa começou quando eu era uma pessoa normal (risos)… Tinha dois cachorros e todos os dias, à tarde, ia passear com eles. Um belo dia, passeando na lagoa, uma gatinha veio correndo atrás de mim. Tentei despistar a gatinha, mas ela insistia em correr atrás de mim. Os cachorros latiam muito, porém, ela não desistiu. Então percebi que ela estava abandonada, peguei-a no colo e a trouxe para casa. Dei ração, ela se acomodou na caixinha e lá ficou.

 

E depois disso, como se chegou a este número de mais de 100 animais?

Começou com esta gatinha, aí fui trazendo mais um cachorro, um gato, minha mãe foi ficando assustada, mas sempre aparecendo mais um… E foi um atrás do outro. Era para ter mais cachorro, mas existe um instinto animal entre eles que brigam muito, se agridem. Infelizmente tem esta parte ruim da convivência, eles podem ser criados desde pequeninhos juntos, mas, de vez em quando, aparecem as brigas. Hoje mesmo encontrei um cachorrinho, mas não posso mais levar para casa, por mais que me aflige o coração, não tenho mais espaço. Deixei em um lugar e estou procurando uma pessoa que o adote. Procuro um lar para eles no meu serviço e com meus amigos!

 

Como você sustenta os animaizinhos?

Eu trabalho, com o meu salário e mais as doações que eu tenho, vai tudo para eles. Tem a aposentadoria da minha mãe, tem ticket e se eu recebo doações, vai tudo para eles. Tenho casa própria, graças a Deus.

 

Tem atrito com a vizinhança?

Nunca tive, graças a Deus. Eu mantenho tudo muito limpo, muito asseado, às vezes uma pessoa ou outra fala alguma coisa como “eu não sei como você aguenta” ou “como você vive deste jeito”, aí eu respondo: “cada um vive como gosta!” Eu não projetei isto para minha vida, as coisas foram acontecendo, quem é que pode ver um animalzinho abandonado, na chuva, no frio e deixar lá? Eu não aguento ver isso!  Como esse de hoje, que não posso levar para minha casa, não consegui deixa-lo lá, mesmo sem ter jeito, dei um jeito!

 

Você os conhece pelo nome?

Conheço! Tem a Pretinha, o Queridinho, Amorzinho, cada um leva o nome de acordo com sua característica. Estão todos castrados, fora os que chegaram mais recentemente e que já estão programados para a próxima castração. São os que peguei por último, os dois pimpolhos, o Theo e a Neguinha. Com os gatos acontece a mesma coisa.  Todos têm nomes, menos os que acolhi mais recentemente, que também vão ser operados. Quem castra os gatos para mim é a Dra. Monica, desde que parou a castração municipal, ela vem operando um gato por semana.

 

Você conta com muita ajuda?

Tenho muita ajuda veterinária clínica, do Dr. André Corona, da Dra. Mônica e também do Dr. Thiago e da Dra. Aléssia Moisés. Na clínica da Dra. Aléssia é a minha tábua de salvação. Eles me atendem na hora Vetclin. Dr. Paulo já me ajudou muito também, mas atendimento veterinário e clinico é mais agora com Thiago e Aléssia. Dou um pouco cada mês, além deles me fazerem mais barato. Tenho uma gratidão enorme por eles. Sou muito grata porque sabem que não disponho de dinheiro, mas nunca negaram um atendimento, dou muito valor para os veterinários porque nunca fecharam as portas para meus bichos, sou reconhecida a eles. A Aléssia e o Tiago por exemplo, nunca foi fundamental o pagamento, pode ser domingo, feriado, de dia, de noite, eles abrem a porta como se fosse qualquer outro cliente. Se precisar ficar internado, eles internam, soro, medicamentos… São meus anjos da guarda!!!

 

Até hoje o pessoal te procura para te entregar animais?

Todo dia! Eu estava varrendo a rua, ainda ontem, e a pessoa me disse: “Cida você não pega um cachorrinho, pretinho, que está abandonado ali?”  Aí eu respondo que não tenho espaço. Os cachorros brigam entre si, se matam, ainda se fosse um gatinho!! Os gatos brigam mas não se ferem, não se matam… Tenho medo de chegar e encontrar brigas. Quando chego em casa e está tudo em paz, agradeço a Deus por mais um dia tranquilo assim. Se eu tivesse espaço, um canil para dois, eu juro que pegaria todos!!! Tem pessoas que chama de acumuladora. Eu não sou acumuladora, eu cuido, zelo… Ontem foram quatro peludinhos para tosar, eu gasto com isso. Estão todos gordinhos e asseados.

 

Como é a sua rotina?

Acordo às quatro e meia da manhã. Vou fazer a limpeza deles, troco as águas, retiro os jornais, limpo, deixo tudo organizadinho, cada um no seu cantinho, porque quando chego eu solto tudo. Só depois de tudo limpo, com ração e água é que eu saio para trabalhar. Faço eles pensarem que eu já saí, dou uma volta e retorno, fico parada uns minutinhos para ver se está tudo bem, daí vou trabalhar. Esta é minha vida! Paro às 11 horas, esquento o almoço, porque faço o jantar e dou almoço para minha mãe, que é acamada. Quando saio para trabalhar, a deixo nas mãos de Deus.

 

Conte-nos um sonho seu.

Se eu ganhasse na Mega-Sena, compraria uma fazenda e iria adequá-la com canis, gatil e deixaria bicho no lugar de bicho e Cida no lugar de Cida. Se vou ao banheiro, vai meia dúzia atrás, se me deito, vem mais meia dúzia (risos), não tenho liberdade. Não me incomodo, mas largo o que estou fazendo e vou dar beijinho e atenção. Minha vida é completa. Já morei em Santos, São Paulo, Bebedouro, Miguelópolis, era uma vida vazia, hoje tenho algo para fazer, faço com amor, só queria mesmo ter condições. E já que estamos falando em sonho, meu sonho e estar viva para ver o Vereador Edvaldo Morais prefeito de Guaíra.

 

A população te respeita?

Respeita! Tem pessoas que não! Passam perto de casa cheirando o ar para ver se sentem algum cheiro. Mas o cheiro que sentem é de desinfetante. Para deixar animais na porta de casa, isso fazem sem questionar, mas querem encontrar algum ponto para reclamar. Uma vez deixaram uma caixa com cinco filhotes. Já teve de gato também. Mas meus vizinhos mesmos nunca implicaram comigo.

 

E como foi quando você teve seu único veículo, sua moto roubada?

Não percebi que roubaram a moto! Quando vi que a tinham levado, meu chão arriou. Fui dar queixa na delegacia, mas foi um flagelo. De bicicleta levar bicho doente, pegar carona com outras pessoas é difícil, cada um tem a sua vida. Mas  tenho alguns anjos na minha vida e a Izildinha Lacativa fez uma ação entre amigos e 100 pessoas colaboraram – a quem quero agradecer de coração – pois pessoas ajudaram e ainda ajudam, mas não querem que eu diga o nome. Só que elas sabem o quanto sou grata. Agradeço a todos porque minha vida estava muito sofrida.

 

Quem são seus Anjos da Guarda?

Eu acho que São Francisco deve me ajudar em forma de pessoas da sociedade que me amparam, porque tem vez que não sobra nada do meu ordenado, mas aí tenho “anjos” que colaboram e não querem que eu diga. Ainda assim, tenho que agradecer aqueles que mensalmente compram e enviam ração e desinfetantes. Tem a Maria Izabel Hipólito, o Pardal da Eletrochoque, o Aguetoni, Izildinha, Dra. Tatia Lacativa, Iolanda Braghiroli, Carlinhos e os eventuais que sempre me ajudam, como Betão. Tem o Paulinho Cornacione, que é a pessoa mais maravilhosa que existe, sem ele não sei o que seria de mim.

 

Deixe uma mensagem.

Eu queria que as pessoas entendessem que eu preciso parar de aceitar os animais. Gostar é uma coisa e ter condições é outra. Não posso colocar os bichos em situação de risco. Chico Xavier já dizia que quem não ama os animais não ama a si próprio.


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