



Mais do que uma jornada física, essa peregrinação é uma ponte entre o presente e uma história que carrega dor, injustiça e fé. A origem dessa devoção remonta ao século XIX, quando um homem negro, conhecido como Pindoba, terminou seus dias de forma brutal e trágica. Segundo a tradição oral preservada na memória comunitária, ele teria sido injustamente acusado de furto pelo proprietário da fazenda onde trabalhava, acusação que hoje se entende ter sido forjada, possivelmente para proteger o verdadeiro culpado, um filho do patrão.
A punição imposta a Pindoba foi cruel. Enterrado vivo, apenas com a cabeça à mostra, ele ficou exposto à fome, à sede e à angústia de ver a comida e o melado perto de si, mas inalcançáveis, enquanto insetos se aglomeravam em seu rosto em agonia.
Essa história, tão dura quanto as estradas de chão que cercam a região, transformou Pindoba em símbolo de sofrimento e resistência. Uma ferida que, transformada em memória, ganhou um lugar sagrado: a Capela do Escravo Pindoba, erguida no local onde sua vida foi interrompida.
A caminhada até ali, além de expressão de fé, é um gesto de solidariedade com uma memória que não pode se perder. Não é raro ver famílias inteiras, jovens e idosos, juntarem seus passos na madrugada, conversando, cantando e, por vezes, caminhando em silêncio, deixando que o ritmo dos pés sobre o solo marque uma introspecção coletiva.
O ponto alto dessa trajetória é a missa solene na capela, conduzida pelo pároco da Paróquia de São Sebastião, Padre Edisson Pátaro, que acolhe com palavras o esforço físico e espiritual dos romeiros.
Organizada por décadas pelo comerciante Orlandinho Gutierrez, com apoio municipal nas áreas de cultura, turismo, segurança e assistência, a Caminhada do Pindoba é hoje um evento que ultrapassa a fé individual e se transforma em símbolo da identidade guairense.
Todos os preparativos, desde o transporte de apoio ao retorno, ambulâncias e tendas para descanso, mostram que a romaria não é apenas tradição, mas um compromisso social e comunitário. A Prefeitura de Guaíra mobiliza equipes de diversas secretarias para garantir não apenas a segurança dos participantes, mas também o acolhimento necessário para que esta jornada seja tão especial quanto desafiadora.
Ao longo de quase três décadas, a Caminhada do Pindoba tornou-se um momento em que dor e fé se entrelaçam, em que um lugar de sofrimento se converte em ponto de encontro para milhares de passos, cantos, orações e reflexões. Em cada edição, renova-se a lembrança de um homem que foi vítima de injustiça, mas que hoje é símbolo de coragem, solidariedade e fé, lembrança que não se apaga e que segue guiando gerações.
E assim, ano após ano, a comunidade guairense reafirma que tradições como esta não são apenas memórias do passado, mas expressões vivas de uma história que pulsa no presente, unindo pessoas, famílias e visões de mundo numa mesma caminhada.

