A crise política, econômica e moral que o Brasil vive, precisa ser analisada através de uma perspectiva histórica. No continente americano, de vocação republicana, o Brasil foi por bom tempo uma monarquia cercada de repúblicas. Sua primeira Constituição foi outorgada em 1824, por um imperador, e não foram impostas condições mínimas para discutir o importante tema da escravidão. É inegável que a longa experiência da escravidão acabou por dar forma à sociedade brasileira. Só com a chegada de Getúlio Vargas ao poder em 1930 uma agenda de direitos sociais aconteceu. A partir de 1946, com a queda de Getúlio e o fim do Estado Novo, as conquistas sociais obtidas foram mantidas e a liberdade política foi fundamental para a paulatina construção da cidadania. Em 1950, a realidade brasileira descrita por Ruy Castro em seu excelente livro “A Noite de meu bem” era a seguinte: 64% da população vivia no campo, dormia cedo, criava galinhas e raramente ia ao dentista. O Rio de Janeiro, a capital do País tinha 2,4 milhões de habitantes e São Paulo 2,2 milhões. A maioria das cidades brasileiras limitava-se a uma igreja, uma farmácia e uma rodoviária cercadas por uma adormecida zona rural. O golpe militar de 1964 e os 21 anos de ditadura restringiram as liberdades políticas, ampliaram os direitos sociais e colocaram o Brasil entre as dez maiores economias do mundo. Em 1987, uma Assembléia Constituinte foi instituída e, à época, Ulisses Guimarães afirmou de maneira peremptória: “A nação quer mudar, a nação deve mudar, a nação vai mudar”. Ulisses Guimarães estava coberto de razão. A partir de 1988, com a promulgação da Constituição “cidadã”, o País mudou. O Brasil é a oitava economia do mundo e nestes últimos 27 anos assistiu a um processo de impeachment, elegeu para presidente um intelectual como Fernando Henrique Cardoso, um retirante e operário como Lula e uma mulher e ex-guerrilheira, Dilma Roussef. A análise sucinta desses fatos é positiva, se olharmos a realidade de outros países da América Latina, do Oriente Médio, da China e da Rússia, entre outras nações. Direitos sociais e prosperidade não acontecem de uma vez. Assim, não há como desvincular a luta por direitos sociais, a conquista da melhoria de renda e a construção da cidadania da história de uma nação e de seu povo. No Brasil de hoje, a democracia está consolidada, os poderes estão separados e as instituições funcionam. Mas igualdade social e uma administração pública eficiente e honesta estão fora do radar. Se olharmos no retrovisor, a imagem é tenebrosa. A roubalheira planejada e consentida da Petrobrás define um patrimonialismo inédito, onde o governo rouba a si mesmo. E assim, depois de tantos e tantos avanços, chegamos à crise atual multifacetada. Uma crise de confiança. Lideranças empresariais, a classe média e o povo não acreditam que o governo, os partidos políticos e o Congresso Nacional tenham capacidade para encontrar soluções para os problemas atuais vividos pelo Brasil. Ao final de 2016, que se inicia, é possível que a economia brasileira esteja 8% menor do que era no primeiro trimestre de 2014, quando parou de crescer. Há anos estamos presos à política de juros altos, à carga tributária elevada, à dívida pública crescente, à pressão cambial, ao baixo investimento privado e à inflação em alta. O remédio para sairmos disso, ao contrário das políticas populistas, é o equilíbrio fiscal permanente. Não há outro caminho se quisermos salvar as conquistas sociais até aqui alcançadas e garantir o crescimento econômico para diminuir as desigualdades sociais. Com um olhar ao horizonte mais amplo, sabemos que a economia brasileira está em crise, mas não está perdida. E, graças ao vigor das instituições que conseguimos construir, é pouco provável que o Brasil não consiga dar a volta por cima. Para isso, no entanto, é preciso que seu sistema político, os políticos no exercício da política, tenham grandeza e responsabilidade.