Asaudade ainda não se despediu de mim

Opinião
Guaíra, 7 de julho de 2016 - 10h52

Algumas vezes eu fico sentada na minha cadeira no alpendre da nossa casa. Gosto de olhar os carros que já saem com seus donos, vindos talvez do seu serviço. As motos, as bicicletas ousadas que muitas vezes atrapalham os pedestres. Os estudantes, alguns apressados para tomarem ônibus ali na pracinha. Vem as lembranças do tempo em que eu estudava,ainda no ginásio.Passa o filme pela minha mente… Uma jardineira velha, barulhenta, levando os estudantes chorosos, depois das férias. Eram quatro horas de viajem numa estrada poeirenta, nem tantos buracos, pois o movimento era pouco. Mas a poeira… Todos usavam guarda-pó e nós, as moças de lenços na cabeça, sempre arrumadinhas, é claro! Raramente a jardineira quebrava tão cuidadosos eram os motoristas. Passávamos pelo armazém “das Perobas” e “São Luíz”. Dava uma paradinha e sempre uma guaraná e um “salgadinho”, que era apenas um pãozinho com mortadela. Estudávamos no Liceu Municipal de Orlândia. A jardineira parava no bar chic e sempre tinha alguém esperando pelas meninas, daí, não podíamos mais nem conversar com os rapazes, que na maioria eram guairenses.Cada um tomava o seu rumo… Ficávamos no internato que era dirigido por competentes diretores e professores. Saí do quarto ano primário e fui para o internato. Lá estudaram minhas irmãs, chorei um pouco, sentindo muito a falta da minha casa alegre e de muitos irmãos. Logo me acostumei e gostava do colégio. Eu me lembro que, no mês de maio, o internato era encarregado de fazer uma noite de orações e festa na igreja Sta. Genoveva à Nossa Senhora.Fui convidada a coroá-la, lá em cima,no altar mor.Foi uma festa para todos nós, daí começou a minha devoção a Ela. Gostava dos professores em especial do prof.Geraldo Rodrigues, de aula de Português, o diretor do colégio, inteligente, culto poeta exigente. Depois veiosubstituí-lo o professor poeta Ciro Armando Cata Preta, e aí, a gente se soltou mais… Tínhamos mais liberdade em fazer perguntas e questionar… Tive alguns prof.de francês… A que eu mais me sentia em casa era a “Jandaci Garcia Leal”, que também foi aluna do Liceu, linda! Guairense e me encantava, até que eu era muito boa aluna de Francês… Eu me lembro quando ela era estudante no Rio de Janeiro,foi em casa de meus pais pedir a coleção da “Divina Comédia”, em italiano.E meu pai se sentia orgulhoso de poder emprestá-la.Quanto foi precioso o tempo que fui aluna do Professor Ciro.Quanto aprendi! Não só suas aulas de redação e gramática, quanto suas lições de homem bom, severo e justo.A classe era silenciosa,porque todos nós queríamos ouvi-lo, tão interessantes e cultas suas lições e como era precioso o tempo e o quantos desafios teríamos que enfrentar a cada dia… Suas lições e exemplos eram convincentes.Saímos de suas lições na certeza de como a nossa língua Portuguesa era importante para nossa cultura e nosso futuro. Perdoe querido professor os erros que cometi neste trecho!Estou até vendo o seu jeito de corrigir, apenas com seu olhar… Guardo com carinho o meu álbum de lembranças que, em uma das páginas já envelhecidas como eu, o seu poema e a sua dedicatória. Lembranças e saudade. Lembranças, quantas lembranças dos tempos que lá se vão, minha vida de estudante e o futuro em minhas mãos… Do meu arquivo da saudades. Guaíra SP, 07 de julho de 2016.


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Eliza Vaccaro da Silva

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