ASSOMBROSO MUNDO NOVO: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Opinião
Guaíra, 13 de junho de 2021 - 14h03

O livro Admirável Mundo Novo (1932), do escritor inglês Aldous Huxley, é uma obra que traz reflexões acerca da vida contemporânea e dos desafios para o futuro da humanidade. Na narrativa, a população desse lugar é gerada por meio de reprodução artificial e manipulada geneticamente, de modo a atender as especificidades de cada grupo a que irão pertencer. Vivendo em uma sociedade futurista, os personagens – habitantes desse lugar – são submetidos a uma espécie de condicionamento biopsicológico ao tomarem a pílula Soma, que lhes subtrai todo o senso de individualidade e de criticidade, tornando-os completamente felizes. Desse modo, esses habitantes passam a aceitar as leis impostas pelos governantes e as injustiças cometidas pela divisão social em castas, sem nada questionar. 

O livro, então, apresenta a visão alucinada de uma humanidade desumanizada pelo condicionamento ao alcance da pílula Soma, envoltos em um cenário horrivelmente perfeito, cuja finalidade é melhorar as características genéticas de uma população, mesmo que para isso seja preciso excluir grupos “indesejáveis” e impedir a sua reprodução.

Hoje, refletindo sobre essa obra que foi publicada há mais de 80 anos, é fácil enxergar que ela é surpreendentemente atual por capturar nosso presente com tanta assertividade: condicionados e manipulados a alcançar a “felicidade”, somos submetidos à antidepressivos, à cultura do corpo,  às químicas de rejuvenescimento e às pílulas como o Viagra e Lybrido que esticam o desejo sexual até a velhice. Além disso, o que é ainda mais assustador, são as manipulações genéticas que possibilitam aos pais selecionarem embriões de acordo com padrões físicos e cognitivos desejáveis para produzirem seus filhos. Com relação a isso, o autor ilustra no livro, os riscos implícitos da frieza do controle do comportamento, que leva à possibilidade de escolher na rua, ao acaso, uma criança saudável e convertê-la, à sua vontade, em médico, advogado, artista, mendigo ou ladrão, independentemente de seu talento, inclinações, capacidades, gostos e origem de seus ancestrais. Desse modo, a obra denuncia uma sociedade em que o controle social não dá espaços ao acaso, como se seguíssemos um modelo que nos garanta certa perfeição e satisfação dos desejos que estamos condicionados a experimentar. 

 Sob a ótica crítico-filosófica, Admirável Mundo Novo é, em essência, um manifesto humanista, na qual se percebe claramente uma sátira à emergente sociedade mecanizada, padronizada, automatizada em nome da modernidade técnica. Nessa perspectiva, o autor Huxley expressa um ceticismo em relação à ideia de progresso diante à invasão do materialismo, ao mesmo tempo em que critica ferozmente a ameaça à inteligência e à dignidade humana. 

Um exemplo que ilustra as técnicas de manipulação é a publicidade e as mídias, as quais usam ferramentas refinadas e perversas para convencer seu público: foi o caso do Mc Donald’s que deixou sua lendária cor vermelha a favor do verde, numa tentativa de aproximar sua marca à ideia de comida saudável e ao estilo de vida sustentável.

  Vale ponderar que a técnica, muitas vezes, nos assegura um certo conforto exterior e uma facilidade em realizar tarefas do dia a dia, entretanto, ela não pode nos garantir perfeição e satisfação de todo e qualquer desejo imediato, pois se assim o fosse, perderíamos nossa razão de ser e nossa sagrada “condição humana”.

A leitura de Admirável Mundo Novo nos alerta contra essas todas essas agressões e sugestionamentos por meio de um gênero literário satírico e pertinente a uma nova sociedade que está sendo levada a seguir a “modernidade” ultraliberal. De forma pessimista, o autor mostra um futuro sombrio e nos adverte para a era das manipulações genéticas e da clonagem, a fim de que vigiemos os progressos científicos atuais e seus potenciais efeitos destrutivos. Além disso, nos ajuda a enxergar os perigos que surgem quando, por todos os lados, os “progressos científicos e técnicos” ameaçam e destroem a natureza, anunciando a destruição do planeta e da espécie humana.


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Simone Cristina Succi

Simone Cristina Succi
Profª Drª em Linguística Aplicada – PUC/SP
Formadora de Professores – Sec. da Educação do Estado de São Paulo

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