Da angústia em se isolar à consciência coletiva

Opinião
Guaíra, 16 de junho de 2020 - 00h41

A pandemia de coronavírus (COVID-19) tem movimentado diversos debates e mudanças na sociedade, o que é para menos, pois desde a Segunda Guerra não vivíamos nada parecido, em escala global. A quarentena obrigatória, o isolamento social e tantas outras restrições se tornaram habituais em quase todos os países: 3 bilhões de pessoas, aproximadamente, precisaram se adaptar às novas maneiras de viver e conviver.

É curioso observar, porém, que o impacto do isolamento social é percebido e vivenciado de maneiras diferentes em cada país, o que nos leva a questionar se tais diferenças teriam a ver com os costumes e as formas de vida de cada sociedade. Pensemos no Brasil: etnicamente diverso, miscigenado, de culturas musical, artística e linguística singulares e crenças religiosas sincréticas; enfim, um país habitado por um povo mestiço genética e culturalmente. Diante a essa diversidade e necessidade de interação e convivência, é possível entender o valor dado às relações sociais e ao contato físico – beijos, abraços e apertos de mão – como gestos fortalecedores dos laços afetivos entre os brasileiros.

A despeito dessas características, somos pegos de surpresa por uma crise de pandemia – inédita para nossa geração – que nos faz experienciar um aspecto desconhecido: a abrupta ruptura com os eventos cotidianos, aliada a uma esmagadora sensação de impotência e pânico, viabilizada pela situação; sensação que é, sem dúvida, contraproducente e desalentadora.

Ademais, o borbulhar de discursos opostos, oriundos do cenário político, acirra a divisão entre os ideais de isolamento e de solidariedade, levando-nos a crer que estar informado dos fatos corrobora nossa angústia e sofrimento, ao mesmo tempo que, desconsiderar as informações sobre a doença, leva-nos à ansiedade de não sabermos lidar com ela.

Nesse contexto, a imprevisibilidade e a incerteza que nos assombra revela uma certa inércia, uma descontinuidade surda de um movimento difícil de descrever: a sensação de inquietação e angústia, de demanda pela letargia frenética que a “normalidade”, outrora, proporcionava. Alguns expressam esse sentimento como uma incapacidade de estar consigo mesmos, entrando em um espiral que, inevitavelmente, se apresenta. Tal dificuldade, evidenciada neste momento, já era presente nessa própria normalidade da qual, agora, sofremos abstinência.

Talvez pudéssemos dizer que nós, brasileiros, temos uma especial dificuldade sociológica quanto se trata de ruptura, de afastamento, de solidão e o paradoxo disso é que, em meio à pandemia, não há espaço para se pensar em soluções meramente individuais: ou construímos alternativas melhores em conjunto, ou pereceremos coletivamente.

Em outras palavras, é necessário entender que em tempos de isolamento, devemos aprender com o que nos é viabilizado individualmente sem perdermos, portanto, o que nos é retirado coletivamente, sob pena de termos a situação agravada se não preservarmos o equilíbrio do binômio eu-outro.

Se o ficar em casa for encarado sob a ordem de um privilégio, levando-nos a um sentimento de culpa, ficaremos ainda mais divididos e acentuaremos as dicotomias saúde/economia, (des)emprego/risco de infecção, direito (à saúde) / dever (responsabilidade social).

Talvez esse momento nos revele uma dupla necessidade: a importância nos voltarmos ao todo e cuidarmos dele, no que tange à política global, à crise ecológica e às relações internacionais, quanto de nos olharmos, individualmente, sem pretensão narcisista. Na esteira dessa discussão, o cientista social Edgar Morin nos mostra que “o todo é maior do que a soma das partes, pois nele contém algo que não existe nas partes: as relações entre elas. Assim, se o homem é produto do meio, da sociedade e, esta sociedade não pode ser compreendida sem a existência de homens, os quais, isolados se unem e formam a sociedade, então seja necessário encontrar a sociedade em si mesmo para compreendermos que cuidar do outro é cuidar de si.

 

Simone Cristina Succi – Professora/Doutora em Inglês, formadora de professores junto a EFAPE/SEE – SP.


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Simone Cristina Succi
Profª Drª em Linguística Aplicada – PUC/SP
Formadora de Professores – Sec. da Educação do Estado de São Paulo

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