A profissão do engenheiro civil já teve muito prestígio no Brasil. Anos atrás, as profissões que a sociedade considerava as mais distintas eram: medicina, advocacia e engenharia.
Muitos anos se passaram e a coisa mudou. Os médicos e os advogados conseguiram manter o prestígio de suas profissões, o que não aconteceu com o engenheiro. Como estamos discutindo engenharia e arquitetura no Brasil, é bom lembrar que nas sociedades antigas só havia o arquiteto que acumulava as funções de mestre de obras e de riscos e recebia as incumbências de faraós, reis, imperadores e papas para idealizarem e construírem palácios, castelos, túmulos, igrejas, catedrais etc. Foi somente em meados do século XVIII com a revolução industrial que as novas tecnologias fizeram surgir a figura do engenheiro. A partir daí toda construção passou a receber a atenção tanto do engenheiro quanto do arquiteto. Hoje é quase impossível se falar de um e não do outro.
No entanto, muitas pessoas têm dúvidas quanto ao que fazem esses dois profissionais. Desconhecem suas atribuições. O engenheiro se preocupa com a estabilidade da construção, seja ela qual for. Já o arquiteto se preocupa com a qualidade da construção. Com isso, não quero dizer que o arquiteto não se preocupa com a estabilidade das obras por ele projetadas e muito menos dizer que o engenheiro não pensa na qualidade das construções sob sua responsabilidade. O que vale salientar é que a preocupação maior do arquiteto diz respeito à qualidade dos espaços construídos e sua organização, à funcionalidade da obra, à forma arquitetônica e ao simbolismo que ela expressa, aos aspectos artísticos e visuais, ao conforto dos ambientes criados e construídos etc. Já o engenheiro tem uma formação que o leva a se preocupar mais com a estabilidade, com a durabilidade, com a vida útil da obra, com a resistência dos materiais, com a tecnologia da construção, com a resistência às intempéries e à ação do tempo etc.
Nenhuma das duas categorias sobrepõe-se à outra. Elas possuem em comum um único objetivo: o projeto e a construção do abrigo humano. Aqui entendido no seu sentido mais amplo, toda cidade, todas as ruas, pontes, passeios, praças, parques e demais construções necessárias ao bom funcionamento do espaço urbano.
Muitas obras de arquitetura e engenharia no Brasil estão apresentando inúmeros problemas, algumas inclusive desabando, lamentavelmente. Um dos motivos desses desastres é a intervenção política _ principalmente dos maus políticos _ no trabalho de engenheiros e arquitetos. Hoje em dia são eles quem definem quais as obras são mais necessárias à população. A sua finalidade, seu tempo de construção, seu custo para mais ou para menos, o bônus político ou financeiro que elas podem lhes proporcionar, sua data de inauguração e, mais precisamente, o dia de cortar a faixa diante da imprensa e de um público fiel de eleitores e militantes partidários.
Se algum político, especialmente aquele que não pensa na cidade ou na população, nas suas diferentes esferas, tiver poucos meses de mandato, por exemplo, ele faz o diabo para inaugurar uma obra qualquer às vésperas da eleição. Ele pensa apenas em se reeleger não se preocupando com a qualidade, a estabilidade, o custo da obra etc. O que importa para ele é que a inauguração atraia os holofotes para sua figura.
Como se isso não bastasse, existe também a questão do brasileiro tradicionalmente não dar muita atenção ao projeto e ao planejamento, chegando ao disparate de alegar que é perda de tempo. Ao se constatar a necessidade de construir uma obra, desde as mais simples até as maiores e mais significativas, a etapa do projeto, infelizmente, é considerada de pouca importância.
A legislação em vigor permite que o projeto arquitetônico fique a cargo da empresa encarregada de executar a obra. Isso nunca deveria acontecer, pois a construtora não dará a devida importância aos aspectos estéticos, funcionais, estruturais, simbólicos etc. do novo edifício. Ela levará em conta principalmente os aspectos econômicos para, claro, obter mais lucros. E isso provocará o comprometimento da vida útil da obra, sua rápida deterioração, o empobrecimento formal e simbólico da obra arquitetônica e sua inadequação espacial. Nos casos mais dramáticos, seu possível desabamento. Por que será que muitas obras públicas recém-inauguradas logo necessitam de reparos e ampliações? A resposta é simples, não se planejou antes. E o pior é que, posteriormente, do modo mais inapropriado são providenciados puxadinhos horríveis que, além de não resolverem o problema, comprometem a arquitetura e a beleza das cidades.
Todos nós sabemos que no Japão o espaço é escasso. Certamente por isso eles dão muita importância ao projeto de uma obra, seja ela qual for. Alguém já disse que eles levam três anos pra fazer o projeto e seis meses para concretizá-la. Ou seja, estudam todos os problemas relacionados àquela obra, todos os impactos que ela causará, o seu custo-benefício, enfim, tudo, para só depois concretizá-la com sistemas construtivos industrializados, rápidos, práticos, modernos e “indolores”. Aqui levamos um mês pra fazer o famigerado “projeto básico” de uma grande obra que terá implicações na cidade inteira, três anos pra erguê-la e o resto da vida para solucionar os problemas mal resolvidos e não previstos nas várias etapas de elaboração dos projetos.
Para uma obra cair no Japão, é preciso terremoto seguido de tsunami. Aqui obras caem e, quando não, dão inúmeros problemas, sem que os motivos possam ser atribuídos aos fenômenos naturais. O que ocorre aqui é uma irresponsabilidade, uma inconsequência tamanha, não de engenheiros e arquitetos, mas de maus políticos, gestores e empresários da construção que querem transformar obras, muitas vezes desnecessárias, faraônicas, irrelevantes, em oportunidades para aumentar os lucros e fazer proliferar a corrupção. No menor dos casos, para cortar fitas, descerrar placas e ganhar eleições.
Por essas e outras coisas, o Japão é o que é: exemplo de organização e eficiência, e o Brasil é isso que vemos: exemplo de desperdício, improvisação e extrema falta de respeito para com a cidade e para com seus cidadãos do presente e do futuro.