Entre a sabedoria e a esperteza

Opinião
Guaíra, 26 de junho de 2016 - 08h03

As diferenças gritantes entre conceitos de sabedoria e esperteza dão as digitais da formação do caráter dos indivíduos. O abismo que aparta esses conceitos, e consequentemente esses indivíduos, são gritantes e provoca profundas deformidades na esperteza, nos ensinamentos, na sabedoria. No Brasil por exemplo foi cunhado o conceito de esperteza para definir as ações ou atividades do indivíduo malandro, e muito foi embutido a denominada “lei de Gerson”, aquele que leva vantagem em tudo. Malandro tupiniquim é o sujeito que para resolver suas situações, se utiliza de malícia, atalhos, formas desvirtuosas ou desonestas, mesmo. Claro que a desonestidade não é uma exclusividade nacional. Mas é importante advertir a particularidade brasileira na aceitação das “categorias” jeitinho malandragem como elementos paradigmáticos à ação “moral”. No nosso país, curiosamente, exaltam-se, ao mesmo tempo, dois tipos visivelmente conflitantes: o honesto e o malandro. Nessa acepção, como bem ressaltou o antropólogo Renato da Silva Queiroz, a cultura brasileira é permeada por uma ambiguidade ética em que termos como “honesto”, “corrupto”, “esperto”, “otário”, “malandro” e “mané” se embaralham num obscuro caldeirão moral. Esse caráter característico de nossa sociedade exige-nos alguns questionamentos: o que levou a cultura brasileira à essa ambiguidade moral? O que fez que nossa sociedade cultivasse certa glorificação da malandragem? E mais: será que essa exaltação do tipo “malandro” tem sido benéfica para o Brasil? Ela tem contribuído para o engrandecimento de nossa cultura ou para sua degeneração? Os reflexos desta pecha são evidenciados em uma sociedade corrupta, desapegada em valores virtuosos, na deseducação generalizada, e que por conseguinte adoece toda coletividade. Doença crônica de nossa cultura, a esperteza transvestida muitas vezes de indiferença nas questões políticas germinam uma casta de representatividade de patifes que se apoderam espertamente dos poderes para se locupletarem. Ciclo vicioso da esperteza tem produzido a mais cruel miséria em nossa sociedade. Muitos pagam o preço caríssimo por suposta “esperteza”, as inúmeras crises de corrupção que diariamente assistimos nos telejornais são o resultado dos atalhos do desapego pela honestidade, que não são exclusivos da classe política, mas consequência da generalização, da apatia esperta de nossa sociedade. Abordada de forma magistral o grande escritor brasileiro Ariano Suassuna retrata em o “Auto da compadecida”, a caricatura do malandro. A história de João Grilo ajudado por Chicó, seu amigo, que tenta se vingar dos patrões exploradores, e do padre que está mais interessado nos bens materiais do que nas causas espirituais. João Grilo, um antiético esperto tenta tirar vantagem das situações por meio de artimanhas até conseguir seus objetivos. Continuamente, Grilo e Chicó retratam no decorrer da história inúmeras situações caricatas, do brasilianismo, até chegarem ao casamento com a filha do coronel, chefe da região, passando-se inclusive por um julgamento divino. Suassuna neste contexto aborda a face miserável e injusta de nossa sociedade que encontra na malandragem um meio de subsistência, na luta de classe desigual em que vivemos. Já o sábio é aquele que usa o que apreendeu em favor da coletividade, não pega atalhos e aguarda a maturação essencial para o amadurecimento. Segundo o escritor francês François Rabelais: “A sabedoria não entra em uma mente mal-intencionada: e o conhecimento sem consciência nada é senão a ruina da alma”. Ruínas da alma ou edificação coletiva são os paradigmas que diferenciam esses dois conceitos, e que deformam a construção de uma identidade pátria. Não se constrói uma nação sem valores virtuosos. Não é mais esperto buscarmos atalhos ou jeitinhos para nossas crises crônicas. O Brasil precisa se despir de sua hipocrisia moral ética. É preciso cultivar e exercer um comportamento mais republicano e menos inconsequente. Afinal, está provado que não somos tão espertos assim, e na verdade constatamos o quanto temos sidos tolos.


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Henrique Matthiesen

Henrique Matthiesen – Bacharel em Direitoo e Jornalista

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