

A maioria das violências que vemos hoje é cometida por homens. Isso não é opinião, é fato! E quem comete violência precisa responder por isso. Mas parar nessa constatação é fácil; difícil é voltar alguns passos e olhar para o que vem antes, para o processo que forma esse comportamento.
Porque, antes de ser o homem que comete um ato de violência, ele foi um menino. Talvez pouca gente se pergunte o que foi ensinado a esse menino no momento em que ainda havia tempo de ensinar.
Desde cedo, muitos aprendem a mesma lógica: engole, aguenta, não chora. Crescem sendo incentivados a resolver conflitos na força, a esconder o que sentem, a não demonstrar fragilidade. O que quase nunca é ensinado, no entanto, é como lidar com emoções como raiva, frustração e rejeição (sentimentos que não desaparecem só porque foram silenciados).
O que se constrói, nesse cenário, não é controle emocional, mas acúmulo. O sentimento que não encontra espaço para existir, mais cedo ou mais tarde, encontra uma forma de sair – nem sempre da melhor maneira.
Explicar esse processo não é justificar a violência, porque a responsabilização é fundamental. No entanto, quando a sociedade se limita a reagir ao erro sem compreender as condições que o produziram, o ciclo tende a se repetir, mudando apenas os personagens.
No dia a dia, trabalhando com jovens, o que costumo ver com mais frequência não é uma agressividade sem causa, mas uma ausência de direção. São adolescentes que não aprenderam a nomear o que sentem, que nunca tiveram espaço para falar, mas que, ao mesmo tempo, foram estimulados a se impor, não recuar e não demonstrar fraqueza.
Quando esse jovem encontra um ambiente onde há regra, escuta e pertencimento, o comportamento começa a mudar – não porque ele se transforma em outra pessoa, mas porque, pela primeira vez, tem acesso a referências que antes não existiam.
Há uma cobrança social por autocontrole emocional que ignora um ponto básico: ninguém desenvolve aquilo que nunca teve oportunidade de aprender.
Por isso, o problema não é ser homem, o problema é crescer sem aprender o que fazer com o que se sente.
Se a intenção é mudar o desfecho, o ponto de partida precisa ser outro. Não basta agir depois da violência; é preciso olhar para os processos que a antecedem, para os silêncios que foram incentivados e para as ausências que foram naturalizadas.
Porque aquilo que não é trabalhado cedo não desaparece com o tempo, apenas muda de forma. E, muitas vezes, reaparece da pior maneira possível.
*Bruno Panda Lopes é professor de jiu-jitsu no programa Geração UPP, especialista em Direitos Humanos e autor do livro “Protetores: o livro das magias ambíguas”

