A violência é o fator de maior preocupação da população brasileira, de acordo com pesquisas de opinião pública. Embora não seja um evento novo no país, como mostra nossa trajetória, rica em acontecimentos bárbaros, o que parece inusitado são as maneiras como ela vem acontecendo atualmente no Brasil. As inesperadas ações de violência e suas diversas formas de manifestação reforçam na sociedade a ideia de que ela se tornou incontrolável e, por isso, acabamos nos submetendo à imposição do medo e do terror por não ter o que fazer diante à ineficácia dos poderes públicos.
Ainda que não tenhamos muita clareza da proporção e das consequências visíveis e sutis do fenômeno violência, podemos facilmente perceber as modificações que ele vem acarretando na maneira de viver e ser das pessoas, no funcionamento das instituições e nos relacionamentos interpessoais: é como se a epidemia violência infestasse a teia social, colocando em risco a nossa saúde emocional e física.
Por ser tão aguda no cenário atual, a violência atinge, obviamente, a escola, que é a tradução em si mesma dos processos históricos, culturais e econômicos de uma sociedade. Atitudes violentas acontecem de formas variadas no ambiente escolar: nas manifestações de racismo, nas brincadeiras sobre gênero e religião, nas atitudes de intimidação e isolamento, nas pequenas agressões físicas e, na pior de todas, na morte violenta entre os jovens.
Segundo o sociólogo Júlio Waiselfisz, autor do livro Mapa da Violência (2016), o aumento vertiginoso do assassinato entre jovens nas escolas está relacionado, entre outros fatores, ao lento e precário sistema educacional brasileiro, cujo tema deveria figurar entre os de maior preocupação das políticas públicas.
Pensamos que a emergência do tema merece interpretações e olhares muito cuidadosos, somados aos esforços da escola. Ressaltamos, porém, que não temos a pretensão nem a competência de aprofundar a análise de um fenômeno tão complexo como esse, cujas causas são, muitas vezes, incompreensíveis e imprevisíveis ou de ordem patológica, familiar, social. Contudo, na figura de cidadãs, professoras, mães e seres humanos, registramos nossa indignação diante dos tristes massacres cometidos por adolescentes que pegam em armas e vão à escola para matar, como os ocorridos em Taiúva/SP (2003), em São Caetano/SP e Realengo/RJ (2011), em Goiânia/GO (2017) e em Suzano/SP (março de 2019).
Embora saibamos que a reversão desse quadro seja um árduo caminho a percorrer, a sociedade, a escola e os governos precisam, juntos, incluir a Cultura de Paz como política de Estado, estendendo a discussão para a sala de aula e para além dela.
Porém, sem a participação da maior das instituições, a família, essa reversão é muito mais difícil. Neste contexto, evidencia-se a importância dela como núcleo primário e natural, de papel fundamental na socialização do indivíduo, uma vez que é dentro da família que o processo de formação encontrará condições para o desenvolvimento de valores humanos e sociais. O exemplo que a família dá ao cumprir seus deveres é o ingrediente essencial para a formação ética de seus filhos.
Nessa caminhada, a escola aprimora as regras e os deveres que o aluno já deveria trazer de casa para, assim, usufruir os seus direitos com dignidade, pois não é possível que a instituição escola passe a estranhar seus alunos e que os alunos a estranhem, abrindo-se caminho para a emergência de formas declarada ou veladamente violentas.
A escola sem violência é possível e muito pode fazer ao incentivar nos alunos os verdadeiros valores, livres de qualquer pretensão moralista, capazes de evidenciar razões para não se optar pelo uso da violência e viver em uma sociedade mais humana…