A corrupção é, sem dúvidas, um fenômeno que desafia estudiosos e leigos quando tentam explicar os motivos que levam pessoas -privilegiadas socioeconomicamente ou não – a se envolverem em atividades ilícitas, sejam elas políticas, religiosas, profissionais ou mesmo interpessoais.
Do ponto de vista da análise tradicional, a desonestidade, em sentido lato,é entendida como um defeito de caráter individual atribuído, quase sempre, ao fracasso familiar no exercício daeducação dos filhos,toda vez que essa parece não se sintonizar com osvalores éticos e morais definidos socialmente. Assim sendo, as soluções protagonistas mais razoáveis para o combate a atos de desonestidade apontam para alternativas penais e legislativas previstas nas doutrinas jurídicas.
O problema da corrupção no Brasil data do seu descobrimento, o período colonial, e não passa despercebido às críticas de escritores neoclassicistas da época, como Cláudio Manuel da Costa, Tomás António Gonzaga, Alvarenga Peixoto e, mais tarde, ao extraordinário realismo dos grandiosos Euclides da Cunha e Machado de Assis. Esse último, em especial, ao entrelaçartempo-espaço-contexto, desvela a tessitura da narrativa e permiteque o leitor adentre o universo psicológico dos personagens, levando-o a perceber as nuances e as gradações que compõe a existência humana e extrapole, assim,alinearidade da história.
Uma das obras machadianas que discute as ações danosas praticadas pelo ser humano éConto de Escola (1844), em que um aluno, Pilar,narraa situação de ter sido flagradoe denunciado pelo colega Curvelo ao fazer a lição para outro colega, em troca de uma moedinha de prata. Tal fato rendeu aos envolvidos punições severasaplicadaspelo professor, o Sr. Policarpo.O conto apresenta quatro personagens masculinos: o professor rígido, Sr. Policarpo; o narrador-protagonista, Pilar, um aluno inteligente, mas que preferia estar fora da escola; Raimundo, o aluno-filho do professor que, devido às dificuldades de aprendizagem suborna o colega para fazer por ele sua lição e Curvelo, o aluno-delator que, ao presenciar o fato, denuncia seus colegas ao professor[1].
O suborno,que envolve diretamente o filho do professore um outro aluno, desperta a ira do mestre em suas formas mais cruéis, como castigos físicos e morais, os quais, ainda que aceitáveis na época,levam Pilara abandonar de vez a escola. Nesse momento da trama, algumas evidênciasparecem emergir:a escola, em não conseguindo resolver o problema de aprendizagem de Raimundo, leva-o a tomaruma atitude antiética, o suborno, em conluio com Pilar e,devido ao fato, sofrerem delação,cujas penalidades acarretamevasão escolar. Fica evidente,então, queo suborno é preponderante àética, revelando que a troca da lição por dinheiro é a face selvagem do capitalismo configuradano par corrupto-corruptor.
Ademais,chama-nos a atenção o fato de o professor-pai importar-se com as atitudes inadequadas dos meninos sem dar a mínima atenção ao desenvolvimento da aprendizagem: é como se o malfeito fosse visto sob a ótica da descoberta, apenas; afinal, “se o mestre não visse nada, que mal havia?” (ASSIS, 1982, p. 193). O professor Policarpo, por sua vez,símbolo do processo educativo, passa a transgredi-lo no momento que defende os bons costumes sociais por meio da violência física e moral, demonstrando descaso com as questões do ensino e da formação humana. A função professoral, assim, parece refletir a ordem requerida pelo mundo: o enfrentamento da corrupção focada na punição e, não, na prevenção.
Conto de escola nos mostra que a aprendizagem da corrupção e da delaçãoextrapolam o contexto escolar e alcançam a sociedade como um todo nas ações que denunciam a fragilidade do caráter humano.O tema denunciado na ficção traça um paralelo com a atualidade permite-nos refletir sobre o malrelativo que perpassa as atitudes das pessoas na complexa teia da vida real. Afinal, quem é mau: Pilar, o corrompido; Raimundo, o corruptor; Curvelo, o delator; ou o professor autoritário e negligente? Seriam todos? Ou mesmo, nenhum deles?
E…será que o delator Curvelo o teria sido por princípios éticos ou por inveja do dinheiro ganho por Pilar?
O mal, revestido em corrupção, como aparece em Conto de escola, é, pois, a transgressão das normas e dos valores sociais, ao mesmo tempo que tem um peso relativizado quando observada sob diferentes ângulos.Sob essa perspectiva, não corremos o risco de relativizar, também, a ética, mutilando seu status intocável e levando – a um status esporádico e flexível?
Enquanto isso, a cegueira política no Brasil nos faz prisioneiros e cúmplices da alienação social, reforçada pelas mãos irresponsáveis dos líderes políticos que cronificam a corrupção e flexibilizam a ética: o que é condenável, por um lado, é bem-vindo, por outro.
No silêncio surdo dessa discussão, irrompe o grito estridente da pergunta: é possível relativizar a ética e a corrupção?
[1]Vale lembrar que à época da escritura do conto, a violência no processo educativo era parte da formação escolar e dava ao professor plenos poderes de sujeitar seus alunos a instrumentos de coerção e medo.
Simone Cristina Succi
Profª Drª em Linguística Aplicada – PUC/SP
Formadora de Professores – Sec. da Educação do Estado de São Paulo