Gordura nem sempre representa um problema

Opinião
Guaíra, 12 de novembro de 2021 - 10h06

Estamos tão acostumados a assistir matérias sobre os males provocados pela obesidade que somos levados a falsa conclusão de que a gordura é sempre ruim. Isso não é verdade, especialmente no campo da medicina regenerativa e tratamento da cartilagem.

O tecido adiposo (nome técnico da gordura) é um tipo de tecido conjuntivo rico em gorduras e muito importante para os animais por ser fonte de energia. Nele temos células especializadas, denominadas adipócitos, responsáveis por armazenar lipídios. Esse tecido representa cerca de 20% do peso corporal de pessoas com peso adequado.

O tecido adiposo origina-se de células mesenquimais, um tipo de célula-tronco do embrião. Essas células acumulam triglicerídeos em forma de gotas que podem fundir-se com o passar do tempo, integrando uma única gota, ou permanecerem nesse estado, sem que haja a fusão. Após essas células diferenciarem-se, elas passam a não mais se dividirem. Na pessoa adulta, além dos adipócitos, uma parte das células mesenquimais continua escondida no tecido adiposo, principalmente ao redor dos vasos sanguíneos. Elas estão ali estrategicamente guardadas para ajudar na cicatrização de lesões.

Acontece que outros tecidos conjuntivos também têm origem a partir destas mesmas células mesenquimais: os ossos, músculos, tendões e a cartilagem. São todos parentes. As células mesenquimais em laboratório podem se diferenciar em qualquer um destes tecidos.

Pois bem, existe um ditado muito antigo entre os cirurgiões:

“O melhor amigo do cirurgião é a gordura”. Isso porque já se sabe há séculos que muitas complicações de cirurgias abdominais são resolvidas pelo próprio corpo do paciente, quando o omento (uma capa de gordura que reveste os intestinos), gruda no local da infecção ou da ferida. Essa gordura tem propriedades cicatrizantes e regenerativas.

Em todos os mamíferos, quando um tecido sofre uma lesão, ocorre um processo de cicatrização que é dividido classicamente em três etapas: inflamação, proliferação tecidual (fibrose) e remodelação. Este processo pode levar a reparação, que é a constituição de um tecido cicatricial diferente do tecido original, ou a regeneração, que é o desenvolvimento de um tecido idêntico ao original lesado. O excesso de fibrose durante a segunda etapa, produzido pelo excesso de inflamação, é reconhecidamente um fator limitante da regeneração tecidual completa que ocorreria com a terceira etapa (remodelação).

O tecido adiposo é uma fonte interessante de células-tronco por vários motivos:

abundância do tecido adiposo no corpo;

facilidade de acesso no subcutâneo;

densidade de células-tronco 300 vezes maior que na medula óssea;

sinais de senescência celular demoram mais para aparecer em comparação com as células-tronco da medula óssea. Ou seja, as células-tronco da gordura ficam “jovens” por mais tempo.

Esta é a base para tratamentos atuais. O mais conhecido no momento é chamado de AMAT (Autologous Microfragmented Adipose Tissue). O cirurgião plástico realiza uma mini lipoaspiração, obtendo cerca de 40 a 60 ml de gordura. Essa gordura é processada em um sistema fechado conhecido como LIPOGENS (Geistilich do Brasil) que fragmenta o tecido adiposo, gerando cerca de 8 ml de SVF (Stromal Vascular Fraction), que é injetado no joelho para o tratamento da Artrose, ou pode ser embebido na membrana de colágeno para tratar cirurgicamente lesões da cartilagem).

Mas será que toda gordura é igual? Existe gordura dentro de toda articulação. (seria uma pergunta também?) Será que a única função dessa gordura é ser uma almofada? Além da função mecânica, esta gordura não estaria estrategicamente ali para ajudar na cicatrização e regeneração das lesões articulares?

Ainda não sabemos isso. Por enquanto, a gordura usada nos procedimentos ortopédicos regenerativos é obtida por lipoaspiração da barriga ou da coxa (gordura subcutânea). Mas uma coisa que sempre incomoda e preocupa o ortopedista é a manipulação cirúrgica de locais que não estão envolvidos com a queixa do paciente.

Por exemplo, quando o joelho direito está machucado, a retirada de um tendão (enxerto) do joelho oposto pode causar queixas no lado que não tinha sintomas. A retirada de enxerto ósseo (pedaços de osso) da bacia para colocar na perna pode causar sintomas na bacia. A retirada de gordura da barriga para colocar no joelho pode causar incomodo na barriga.

Por isso, o uso da gordura do próprio joelho para os tratamentos regenerativos talvez seja uma opção promissora. Estudos estão sendo realizados na Unicamp para determinar se essa hipótese é viável, para que no futuro breve possamos oferecer esta alternativa para nossos pacientes.

 

Sobre a fonte:

Dr. Alessandro Rozim Zorzi

Graduado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP em 1999; fez residência médica em Ortopedia e Traumatologia na Unicamp; especialista em Cirurgia do Joelho e Doenças Inflamatórias no Hospital de Clínicas da Unicamp, onde também fez mestrado e doutorado em Ciências da Cirurgia; fez curso de Especialização em Pesquisa Clínica PPCR Harvard Medical School e em Ética da Pesquisa com Seres Humanos na Unesco.

É supervisor do Programa de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp; membro relator do Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp; médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo, onde atuou como Plantonista em Ortopedia de 2007 a 2020 e como Pesquisador Médico de 2017 a 2020; é professor de Medicina na Faculdade São Leopoldo Mandic em Campinas-SP.

É membro: do Comitê de Medicina Regenerativa da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT); Comitê Musculoesquelético da Federação Mundial de Hemofilia (WFH); Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho (SBCJ); Sociedad Latinoamericana de Rodilla e Desporto (SLARD), International Society of Arthroscopy, Knee Surgery and Orthopedic Sports Medicine (ISAKOS) e da International Cartilage Regeneration and Joint Preservation Society (ICRS).


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