MEMÓRIAS DA NOSSA INFÂNCIA!
Texto compartilhado pela Dora em um grupo das amigas que trabalharam no Banco Real de Guaíra. Uma leitura que toca fundo e com a qual assinamos embaixo, por retratar com verdade uma época, valores e memórias que marcaram gerações. Uma pena não conhecermos o autor, mas a força das palavras fala por si.
Minha mãe cortava o frango, picava os ovos e passava manteiga no pão com a mesma faca. Na mesma tábua. Sem água sanitária para cada tarefa. E sabe o que aconteceu? Nada. Eu não lembro de ter tido intoxicação alimentar uma vez sequer. Todo domingo era “frango com batata frita”. Não precisava de Mc Donald’s para ter refeição em família. Eram nossas tradições. Simples. Mas preciosas. Nosso lanche da escola era embrulhado em saquinho de pão. Não tinha lancheira térmica. Não tinha compartimento refrigerado. E o lanche? Pão com manteiga e uns pedaços de chocolate.
Surpreendentemente, nenhuma bactéria nos derrubou. No verão, a gente mergulhava no rio, lago, praia. Ninguém sonhava em pagar para se espremer numa piscina cheia de cloro. As praias nunca fechavam. E a gente nadava sem medo. Na escola, fazíamos educação física com tênis simples. Sem amortecedor. Sem tecnologia de mil reais. A gente caía? Sim.
E levantava. E aquelas quedas viravam histórias. Fez algo errado? Levava castigo. Isso se chamava disciplina. E a gente cresceu respeitando regras e honrando os mais velhos. Éramos, às vezes, cinquenta por sala. E, mesmo assim, todo mundo aprendeu a ler, escrever e fazer conta. Tabuada? A gente sabia de cor. Dever de casa? Fazia à noite, na mesa da cozinha. E conseguíamos escrever uma carta sem erro de português. No meio do ano, tinha festa junina. Bolo feito pelas mães. Rifa. Quadro de honra com os nomes dos melhores alunos. Que orgulho! Não importava de onde a gente vinha. Cantávamos o hino nacional juntos. Respeitávamos a bandeira. E ninguém achava isso opressão. A gente brincava na rua até os pais chamarem. E eles sempre sabiam onde a gente estava. Porque todo mundo se conhecia. Todo mundo cuidava. E sim, dava para andar na rua de noite sem medo. Picada de abelha? Não ia para o hospital. Não tomava antibiótico. Era iodo, alho ou vinagre. E passava. Briga na escola? Resolvia no soco. Nunca com faca. Nunca com arma.
E no dia seguinte, a gente já tava jogando bola junto de novo. E sabe o mais importante?
A gente não conhecia o termo “família disfuncional”. Resolvia as coisas naturalmente. Sem terapia em grupo. Sem remédio controlado. Só a vida. Simples. Verdadeira. Como a gente sobreviveu? Talvez, justamente, por causa dessa simplicidade. Amor a todos que viveram essa época. E aos que não viveram…
Sinto muito pelo que vocês perderam. Porque hoje: a faca tem que ser uma para cada coisa.
O lanche tem que ir em marmita térmica com gelinho. A criança não pode cair porque “vai traumatizar”. A disciplina virou abuso. Cantar o hino virou “doutrinação”. Brincar na rua virou perigo. Resolver no soco virou crime. E, em meio a tanta proteção… As crianças ficaram mais frágeis. Mais ansiosas. Mais perdidas. Porque trocamos simplicidade por paranoia, liberdade por controle, resiliência por fragilidade. E agora temos: crianças que não sabem lidar com frustração. Adolescentes que não sabem escrever uma frase. Adultos que não sabem resolver conflito sem processar alguém.
Não estou dizendo que tudo era perfeito. Não estou romantizando pobreza. Não estou defendendo violência. Mas, tem algo que a gente perdeu no meio do caminho: a capacidade de ser simples. De ser forte. De ser gente. Porque hoje: temos mil informações, mas nenhuma sabedoria. Mil redes sociais, mas nenhuma conexão real. Mil terapias, mas
nenhuma paz. Às vezes, eu olho para trás e penso: a gente não tinha nada. Mas tinha tudo.
Tinha vizinho que cuidava.
Tinha rua para brincar. Tinha simplicidade para ser feliz. E hoje?
Hoje a gente tem tudo. Mas parece que não tem nada.
Esta é uma homenagem a quem cresceu com o simples. E sobreviveu. E virou gente de verdade. Não porque era melhor. Mas porque era real.

