Os primórdios da educação em Guaíra – Parte I

Opinião
Guaíra, 28 de novembro de 2017 - 10h03

Guaíra sempre teve a agricultura e a pecuária como bases de sua economia. Essas atividades inicialmente eram pautadas em técnicas antigas de produção, que não exigiam nenhuma preparação da população rural que, por sua vez, não possuía nenhum interesse pela escola. Contudo, pelo menos desde 1906, de acordo com o livro de registros de visitas do inspetor escolar, pertencente à Câmara Municipal de Nuporanga, havia, na localidade que daria mais tarde origem ao núcleo urbano de Guaíra, uma escola isolada com uma sala para meninas e outra para meninos.

Na década de 1920, Guaíra ainda não passava de um distrito, já então pertencente ao município de Orlândia, e sua população continuava ser eminentemente rural. Justamente naquela época o descaso com a educação se modificou um pouco, no país, uma vez que o analfabetismo era considerado o maior inimigo a ser vencido pela sociedade brasileira e a educação, passou a ser considerada o caminho mais importante para a superação dos entraves para o desenvolvimento do Brasil. Assim os anos 20 foram marcados pela preocupação com a expansão da rede escolar, a alfabetização do povo e a melhora das condições didáticas e pedagógicas. Entretanto, a educação rural no Brasil, em geral, continuou abandonada, os investimentos públicos eram destinados na maioria das vezes às escolas urbanas, sendo que as populações rurais permaneceram distanciadas das melhorias educacionais.

Como já visto, no distrito de Guaíra as primeiras letras eram ensinadas por professores contratados pelo poder público municipal, que atuavam em uma escola isolada mantida pela Prefeitura de Orlândia, ou até mesmo em algumas outras que existiram, em Guaíra, antes de sua emancipação político-administrativa. Uma delas funcionou nas dependências de um cinema (sem iluminação ou ventilação e nem mobiliário adequado).

Entre os professores que lecionaram naqueles tempos, em Guaíra, muitos deles tinham escolas que funcionavam em suas próprias residências, de forma improvisada, com cadeiras emprestadas dos vizinhos ou mesmo caixotes para fazer as vezes de carteiras. Eram todas elas também denominadas escolas isoladas.

Na zona rural alguns fazendeiros contratavam preceptores, que atuavam para ensinar a seus filhos e agregados, de modo geral eram eles detentores de um conhecimento relativamente escasso, sendo severos e aplicando muitas vezes a palmatória. As famílias mais abastadas, posteriormente, enviavam as suas crianças aos colégios internos – quase sempre confessionais -, existentes, entre outros, nos municípios de Franca, Jaboticabal, Jardinópolis, Batatais, Ribeirão Preto e até mesmo São Paulo. Os filhos dos empregados e dos pequenos sitiantes vizinhos, por sua vez, ficavam apenas com o aprendizado das primeiras letras e com alguma noção das quatro operações matemáticas. As crianças pertencentes às camadas pobres da zona rural, no interior do Brasil eram, à época, extremamente importantes como mão-de-obra para as suas famílias, ajudando-as no trabalho de cultivo das roças, na lida diária com o gado vacum, bem como também nos trabalhos domésticos.

Para o estabelecimento de uma escola isolada, muitas vezes o professor precisava encontrar, ele mesmo, em uma determinada localidade, um número mínimo de alunos, que podia ter diferentes idades, e então requerer a criação de uma cadeira de instrução primária ao poder público municipal ou estadual. Para tanto, o professor necessitava atestar sua conduta moral e algum conhecimento do que pretendia ensinar, ou seja: ler, escrever, domínio das quatro operações, alguns preceitos religiosos e apresentar um atestado de moralidade. Geralmente recebiam salários baixos, ensinavam em salas multisseriadas, contavam com condições de trabalho precárias e quase nunca dispunham de materiais didáticos adequados.

As escolas isoladas existentes em Guaíra, assim como era bastante comum em outras regiões e localidades brasileiras, não dispunham de calendário escolar e muitos entravam e saiam da escola em diferentes épocas do ano. Os alunos tinham diferentes idades e faltavam às aulas com relativa frequência.

No início do século XX, foram envidados esforços para a expansão da escola primária no modelo de grupo escolar, no estado de São Paulo e também em outros estados brasileiros. Entretanto, na primeira república, antigas formas de escolarização mantiveram-se em funcionamento em grande quantidade no interior do estado, a exemplo das Escolas Isoladas e das Escolas Reunidas. Essas últimas eram um tipo de instituição educacional de baixo custo, considerada intermediária, entre o Grupo Escolar e a Escola Isolada. O estabelecimento das Escolas Reunidas, em detrimento do grupo escolar, se dava muitas vezes em função da pouca quantidade de alunos existentes na localidade ou, em alguns casos, pela resistência das próprias famílias em matriculá-los na escola. Outro fator importante a ser considerado é que as Escolas Reunidas representavam menos gastos aos cofres públicos, tanto para a sua instalação, quanto para a sua manutenção e seus prédios escolares eram mais simples, não necessitando investimentos em grandes obras para uma construção monumental, própria dos grupos escolares das primeiras décadas do século XX.

Em 1920, por meio de reivindicação feita por líderes políticos locais junto ao Coronel Francisco Orlando Diniz Junqueira, seu correligionário do Partido Republicano Paulista e chefe político da região, foram instaladas no distrito de Guaíra, então pertencente ao município de Orlândia, as Escolas Reunidas de Guaíra, primeiro modelo de escola graduada que aqui existiu. De acordo com o Livro de Termos e Visitas da Câmara Municipal de Orlândia, em visita realizada a escola, a 28 de maio de 1920, o inspetor escolar relata que as escolas eram divididas em seções masculina e feminina. Já em 1922, a escola passou a funcionar em dois períodos.

A escola graduada foi um modelo de organização escolar, muito utilizado em diversos países europeus e também nos Estados Unidos, a partir do século XIX, de modo a possibilitar a expansão da educação popular. No Brasil, houve uma ampliação desse modelo de organização escolar, principalmente a partir do início do período republicano. Importante se faz lembrar que, com a escola graduada, além da classificação por nível de conhecimento, com agrupamentos supostamente homogêneos e constituição de classes, passou haver também o ensino simultâneo, a racionalização curricular, com a distribuição ordenada dos conteúdos, introdução de um sistema de avaliação e um edifício escolar com várias salas de aulas e diferentes professores.

Continua…

 


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Marcelo Borba de Freitas

Marcelo Borba de Freitas é historiador e gestor escolar   

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