Os universitários

Opinião
Guaíra, 9 de dezembro de 2019 - 11h46

Quando se observa a história tem como convicção que em qualquer tempo e lugar o indivíduo é sempre o mesmo na sua natureza, tanto no seu aspecto animal, como na sua racionalidade, entretanto, quanto o indivíduo se educa aí triunfa seu espírito e, consequentemente, o homem realiza como ente humano, mas se deixar ser denominado pelos primitivos instintos, aí decai sua grandeza racional se comparando o indivíduo aos brutos. Os documentos da história da humanidade têm demonstrado sua evolução e transformações culturais no seu dia a dia.

Na observação da vida universitária dos estudantes na Idade Média, início das grandes Universidades na Europa, tirando determinadas particularidades próprias da época, eram os estudantes medievais bem semelhantes aos acadêmicos dos dias atuais e formavam no século XII uma população estudantil cosmopolita nos grandes centros universitários por toda Europa Medieval. A língua oficial entre os estudantes era o latim, tanto isto é verídico que o nome do bairro que se dá  em Paris de Quartier Latin, é pelo fato de que ali naquela região da cidade moravam os estudantes universitários e todos eles falavam entre si o latim, daí a origem do nome do  bairro e entre os universitários havia olheiros incumbidos de vigiar a linguagem dos estudantes que usassem o idioma nativo nas conversas se sujeitavam a multas.

Todo estudante pobre podia ascender posições privilegiadas e altas dignidades pela meritocracia ensejada, principalmente pela Igreja Católica, como por exemplo, o governante da França durante as cruzadas, Suger, no reinado do Luís VII, era filho de servos, ou Maurício Sully, bispo de Paris, que construiu a catedral de Notre Dame, era um filho de mendigo e  Roberto de Sorbon, o famoso professor da Universidade de Paris no século Xlll e fundador do colégio Sorbon, que posteriormente deu o nome de Sorbonne à própria universidade, era um filho de pequenos agricultores sem pertencer nem a nobreza e nem a próspera burguesia.

Os estudantes mais afortunados tinham alojamentos próprios e dispunham de serviçais, já os mais pobres alugavam quartos de pensão e conseguiam eximir-se dos pagamentos das taxas de inscrição na faculdade desde que justificassem suas incapacidades monetárias. Muitos recebiam auxílio dos pais ou parentes, entretanto, outros sobreviviam de pequenos ofícios, como copistas, encadernadores dos livreiros, ou então auxiliavam algum estudante nobre. Já nos finais do século XII, foi fundado na cidade de Paris colégios para os estudantes mais pobres e hospedarias gratuitas. Os estudantes mais jovens e numerosos pertenciam as Faculdades de artes em idades de 15 a 18 anos e muitos eram bolsistas que desfrutavam de recursos suficientes para sobreviverem longe de suas famílias. Os estudantes de medicina e os teólogos entre 20 e 25 anos de idade eram os maiores bolsistas com recursos calculados para os longos anos de estudos.

É curioso salientar que os estudantes da Idade Média iam para as universidades às 6 horas da manhã e voltavam à tarde em cortejo com seus mestres e os galochas, assim denominados, devido ao uso de tamancos para poder caminhar na lama do bairro Quartier Latin, na cidade de Paris e somente os mais presentes em sala de aula que os mestres admitiam por se tratar de ouvintes mais amadurecidos.

Pelas ruas, os estudantes universitários cometiam, tal como hoje, os excessos, concorriam às festas universitárias, divertiam nas tabernas, que eram um misto de restaurante e bar, praticavam jogos, lutas e havia o ”bee-jaune”, que era o calouro na universidade e, também como hoje, era submetido a uma série de brincadeiras, como insultos, arrecadação de dinheiro, isto porque o calouro nas universidades do século XII era como um animal selvagem que deveria ser civilizado. No sul da França, o calouro universitário era considerado tal como um criminoso que deveria ser julgado e admitido à purificação de seu específico pecado de ignorância e inexperiência.

No período medieval, nas universidades, a disciplina era suave e os celebres castigos só vão surgir tempos depois, já na Renascença, por volta do século XV e os crimes contra a lei civil e eclesiástica eram punidos com a prisão e excomunhão, posteriormente com multas. Os estatutos das universidades na Idade Média variavam conforme o país, na Universidade de Paris, por exemplo, pouco interferiam como nas demais na vida particular do estudante e se desconhece o uso de açoite com varas.

É verdade, todavia de que houve uma renovação pedagógica no período seguinte na Renascença, por volta do século XVI, com o retorno dos ideais clássicos onde foram introduzidos, nos colégios e nas universidades, os açoites, entre outras medidas de rígida disciplina. É bastante interessante o texto deixado por um estudante medieval encontrado em uma biblioteca ”desejo que todos os tempos sejam os de abril e maio  e que todos os meses nos deem novamente todos os frutos, que todos os dias nos deem lírios, girassóis, violetas e rosas por onde quer que passemos, campos e prados verdejantes e que todo amante tenha sua companheira e que todos se amem sinceramente e a todos seja dado usufruir os prazeres da vida e a doçura do coração…”


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Paulo Sérgio Lelis

Paulo Sérgio Lelis é Mestre em Direito Público

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