Por que há tanto ódio na Internet?

Opinião
Guaíra, 4 de dezembro de 2018 - 10h47

Quem nunca se enfiou em uma treta daquelas nas redes sociais, que atire a primeira pedra. Cada vez mais comuns, dia sim dia não ocorrem tretas daquelas épicas. As pessoas deixam a razão de lado e tomam todas suas decisões baseadas na emoção.

Mas por quê?

A resposta está dentro de cada um de nós. Sim, no nosso DNA. A velocidade da evolução humana é muito mais rápida que nossa evolução darwiniana. O processo mutagênico depende puramente do acaso, tornando-se eficaz apenas quando falamos em milhares de milhões de anos. O homem passou seus 300 mil anos de existência se relacionando com o olho no olho. Disso surgiu a empatia, a capacidade do ser humano em compreender o que o outro sente. É a empatia que faz sentirmos vergonha quando seu tio manda aquela piada do “é pavê ou para comer?”, sentir tristeza quando vemos alguém sofrendo, ou rir sem qualquer motivo só porque vemos alguém rindo. Quer fazer um teste sobre a empatia? Boceje ao lado de uma pessoa e você verá que bastarão poucos segundos para que ela boceje também. A empatia foi um dos fatores primordiais que transformou o homo sapiens na espécie mais poderosa da Terra, superando inclusive outras espécies de homens como o homo erectus e os Neandertais. Fisicamente o Neandertal venceria facilmente qualquer Homo sapiens. Mas a empatia permitiu que os Sapiens se organizassem melhor em grupos. E quem acabou extinto foram nossos primos europeus.

Quando conversamos com alguém sem qualquer contato físico – não olhamos nos seus olhos, não ouvimos sua voz ou não sentimos seu toque – é como se a empatia fosse desligada dentro de nossos cérebros. É por isso que temos tantas brigas no trânsito. Dentro dos carros, nosso cérebro primitivo não entende que dentro dos outros carros possuem pessoas. Vemos apenas outro automóvel.

A empatia está em modo off. Ou quando um político corrupto desvia dinheiro. Ele sabe que aquele ato irá matar várias pessoas por não ter vagas em hospitais ou tratamento adequado, mas ele o faz com muito mais tranquilidade que matar uma pessoa com um revólver. Está apenas assinando alguns papéis e guardando malas de dinheiro. O mesmo acontece nas redes sociais. A falta de empatia, apesar de exacerbada nos dias atuais, é antiga na humanidade. Ao se dividir em grupos, há uma natural falta de empatia com membros das outras tribos. Isso pode ser de acordo com a raça, povos, ou até mesmo times esportivos.

É a falta de empatia entre as diferentes tribos que situações como a escravidão e a os genocídios tenham ocorrido de forma tão frequente na história da humanidade. Há outros pontos, claro. Temos que entender que nosso cérebro evoluiu não para nos dar clareza e ver a razão nos fatos, mas sim para sobreviver. E sobreviver significava participar de uma tribo e seguir suas regras. Veja o caso da cidadania de Barack Obama. Muitos diziam que ele era muçulmano nascido no Quênia. E continuaram afirmando mesmo quando ele mostrou sua certidão de nascimento original. Para eles era mais fácil manter o discurso ideológico do que se render aos fatos. Isso porque nosso cérebro considera mais seguro nos mantermos unidos a nossa tribo e a nossa ideologia do que mudarmos de opinião frente a novos dados e acabarmos isolados e indefesos.

Sim, a teimosia está no íntimo de todo ser humano, e foi ela que permitiu a sobrevivência. Além disso, nosso cérebro também é desenhado para defender nossa identidade e nossa visão do mundo. Então quando uma ideia nova aparece querendo desafiá-la, um alarme automaticamente começa a soar dentro de nossas cabeças. Por isso que as pessoas reagem de forma tão irritada e às vezes violenta – a informações que provem que elas estão erradas. E pelo mesmo motivo que é tão difícil ter um debate político de forma inteligente e cordial. E o que podemos aprender com tudo isso? Qual a melhor forma de convencer as pessoas a usar a razão para basear suas decisões? Mostrar os fatos de forma racional não adianta. Os estudos comportamentais já mostraram que quanto mais fatos e dados concretos são jogados contra as crenças de uma pessoa, mais convencida das suas ideias originais ela fica. É o que se chama de Backfire Effect. Lutar contra a ignorância usando fatos é o mesmo que tentar apagar o fogo de uma panela cheia de óleo com água: parece que vai funcionar a princípio mas apenas piora ainda mais a situação. Quando for tentar mostrar fatos racionais para uma pessoa com suas crenças pessoais, evitem que seu cérebro primitivo seja ativado e ele passa a te ver como uma ameaça. Tente mostrar para ele que você não é um estranho e também pertence a uma equipe comum aos dois. “Olha, ambos temos filhos pequenos!”, “Veja só, nós somos da mesma família!”, ou até mesmo “Não me diga que você também é fã de Pokémon Go…”.

O segundo ponto é sempre manter a cabeça aberta e livre de preconceitos. A primeira pergunta que você tem que fazer é: “Será que estou certo e esses dados realmente são verdadeiros?”.

Você vai descobrir que não são poucas as situações onde seus argumentos não são assim tão verdadeiros… E se você descobrir alguns desses pontos, ótimo. Admitir que você não está certo em tudo vai ajudar a outra pessoa a entender que não há problema em estar errado quando se está defronte de novas evidências.

Somente tendo consciência de todos esses vieses naturais que nosso cérebro trás de anos de evolução é que podemos transformar o mundo em um lugar mais racional, onde decisões sejam baseadas mais na razão do que na emoção.


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Marcelo Lacativa

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