Nunca iria imaginar que um dia o envelope seria substituído pelas teclas. Já explico. Se o envelope significa segurança, secreto, inviolável, para mim estava resolvido, desde quando tinha sete anos de idade. Seria a solução definitiva do modo de votar. Qualquer voto. Até aquele que se faz no íntimo, o chamado voto de confiança, sempre envelopado com o papel mais resistente da vida, o da honestidade. Mas a tecnologia avançou, felizmente. E veio para ajudar. Com teclas e até com música.
Toco nesse assunto hoje porque vivi e cresci na época em que se votava nas eleições com cédulas impressas avulsas que ficavam nas cabines, nas seções eleitorais, com os nomes dos candidatos. Os eleitores escolhiam na hora entre as cédulas disponíveis ou traziam no bolso aquelas previamente decididas. Era só coloca-las no envelope rubricado e deposita-lo na urna. Hoje, toda essa sequência é substituída pela digitação eletrônica e uma musiquinha indica a finalização do processo.
Vi aquela antiga sequência das cédulas quando acompanhava o pai que invariavelmente era convocado para trabalhar nas eleições, nos tempos idos. A presença de criança na sala era permitida somente depois de terminada a votação. Aí começavam as minhas ‘reinações’. O resultado era a coleta de pacotes de cédulas restantes que serviriam para rascunho ou para dobradura, uma arte que fascinava os pequenos. Mas houve outra valiosa descoberta da qual nunca mais me esqueci.
Numa das salas de aula de minha escola, na cidade de Leme-SP, que acabara de ser utilizada na eleição, descobri um enorme piano de cauda. Seria um dos famosos Steinway & Sons? Verniz preto, brilhante, reluzente, o instrumento foi um deslumbramento aos meus olhos. Para minha surpresa a tampa de cobertura do teclado estava destravada e não me contive na curiosidade de criança. Ninguém por perto, abri-a e eis que teclas brilhantes surgem pedindo algo. Elas imploravam o toque na descoberta dos sons. Não resisti e foi um fascínio instantâneo, fugaz. Mas algo me ficou incompleto no íntimo. Algo que não sei o que é mas procuro até hoje toda vez que sinto nos dedos o toque aveludado dos sons produzidos pelo instrumento maravilhoso que me conquistou e foi eleito naquele dia. Só sei que foi a eleição do belo som, aquele universal que elege os desafios da alma humana. Seria o da melodia da vida?
Um som que não exclui o da moderna urna de teclar votos, pois este também diz respeito à nossa vida!