Virtudes para o mal

Opinião
Guaíra, 11 de junho de 2017 - 10h06

Para Aristóteles, “in medio virtus”. Ou seja, a virtude está no meio termo. Demorei para aceitar a ideia. O “meio termo” sempre me parecia a mediocridade, o morno, o incompleto. Mas o raciocínio aristotélico é interessante.

Entre dois polos, o melhor é a moderação. Assim, entre a absoluta avareza e a desenfreada prodigalidade, a temperança é a virtude. Entre a preguiça e a hiperatividade, a postura adequada é ter tempo para a ociosidade e tempo para o trabalho. Entre a gula e o regime famélico, nutrir-se do necessário é virtuoso.

Agora vem outra ideia a me angustiar. Tenho visto que algumas virtudes estão sendo relegadas pelos que se dizem virtuosos e cultivadas pelos malfeitores. É o que leva o Brasil a reconhecer o malefício causado pelas facções criminosas.

Ali, a infância é treinada a sobreviver, a despeito de toda a adversidade. O mal recruta a criança a partir dos seis ou sete anos de idade para servir de “aviãozinho” para transportar droga. E cobra dele um espírito de sacrifício inexigível para a criança da classe média.

O trabalho é diuturno, devotado e sem erro. Imagine alguém a pedir certa quantidade de maconha e receber como resposta que o funcionário encarregado de fornecê-la faltou. Ou que está doente, apresentou atestado médico. Ou que o produto está em falta.

Isso não ocorre. Entretanto, quando se necessita do serviço público, tais desculpas são rotineiras. Quem está mais preparado para sobreviver? O treinado pelo marginal ou o educado pela nossa escola do “mais ou menos”, do “da vida nada se leva”, do “é assim mesmo”?

O Brasil do bem é covarde, nessa fase melancólica em que nada parece funcionar, enquanto o Brasil do mal se organiza e faz a corrente demoníaca se desenvolver, crescer e recrutar a cada dia mais braços e inteligências.

Uma sociedade só dará realmente certo se os bons tiverem a coragem de ser audazes assim como os maus o são. Não se pode negar eficiência às facções criminosas. Enquanto é preso um jovem por causa das drogas, há uma fila de dez outros à espera de ocupar seu lugar.

A cada prisão por tráfico de entorpecentes, o Brasil legal propicia o cárcere para mais várias outras pessoas. Pois o primeiro compromisso daquele que é preso pela vez primeira, junto à organização criminosa que cuidará de seu futuro e de sua família, é abastecer de droga o sistema.

Aí vêm as irmãs, namoradas, mães, primas e companheiras, que se tornam outros alvos para o aprisionamento. Mas a Rede continua eficiente. E eficiência é virtude. Ou não é?

O que estamos fazendo para acabar com isso?


TAGS:

José Renato Nalini

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020

Ver mais publicações >

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

OUTRAS PUBLICAÇÕES
Ver mais >

RECEBA A NOSSA VERSÃO DIGITAL!

As notícias e informações de Guaíra em seu e-mail
Ao se cadastrar você receberá a versão digital automaticamente