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Cine Guaíra – Última sessão

Geral
Guaíra, 19 de agosto de 2017 - 09h46

“O cinema é um modo divino de contar a vida” – Frederico Fellini.

O velho Cine Guaíra, com sua singela arquitetura, suas paredes revestidas de pastilhas, colunas feitas de tijolos cerâmicos de formato cilíndrico, seu gradil pantográfico que aberto se encolhia todo e quase se escondia nos cantos, era uma verdadeira casa de espetáculos que a todos encantava. As pessoas entravam sem pressa e observavam com grande interesse aqueles cartazes coloridos maravilhosos, que mostravam algumas das cenas mais importantes dos filmes a serem exibidos e seus artistas mais famosos.

Todas as noites e especialmente nos finais de semana, na década de 1960 e 1970, uma das poucas diversões da minha geração era ir ao cinema. De repente, a porta metálica era aberta e o seu Valdemar Moreira ou a dona Lula Cavenagui apareciam na bilheteria. Uma fila se formava e eles começavam a vender ininterruptamente os bilhetes de entrada. Na portaria ficava a bondosa dona Terezinha e na “bomboniere” lá estava o seu Cândido Mielli, com seu pequeno balcãozinho repleto de guloseimas variadas. Depois do brilho dos cartazes, era o brilho daquele balcãozinho o que mais atraia o olhar das pessoas, repleto de bombons sonhos de valsa, prestígios, diamantes negros, bis, cigarrinhos de chocolate e as famosas balas Chita e Piper. Todos sempre compravam algo pra saborear enquanto viam o filme.

Subindo a escadaria adentrava-se na enorme sala com suas confortáveis poltronas com estofamentos vermelhos. A luz indireta e suave proveniente das singelas arandelas e sancas nas paredes e no teto conferiam uma tímida sofisticação ao ambiente. Mas, logo à frente, a imensa tela era recoberta por uma enorme e espessa cortina que escondia o mundo novo do cinema, maravilhoso, encantador, fantástico, repleto de histórias de amor, dramas, aventuras, sonhos e emoções. No momento certo ela se abria e a magia envolvia a todos.

Homens e mulheres, jovens e adultos, vestiam seus melhores trajes para irem ao cinema e uma vez lá dentro, ficavam conversando até que uma música específica e inesquecível anunciava que o espetáculo iria começar. Ao apagar das luzes a cortina era aberta. O brilho mágico da tela resplandecia e cenas fantásticas surgiam diante dos olhos brilhantes e ansiosos de todos. Ninguém mais desgrudava os olhares das belas imagens coloridas e em movimento, quase reais!

Grande era a admiração dos homens quando surgiam na tela estrelas como Sophia Loren, Elizabeth Taylor, Vivien Leigh, Natalie Wood, Julie Andrews e Claudia Cardinale, entre outras, protagonizando grandes filmes. Da mesma forma, as mulheres suspiravam mais profundamente quando astros como John Wayne, Kirk Douglas, Henry Fonda, James Stewart, Charlton Heston, Rock Hudson, Omar Sharif e Clark Gable entravam em cena, estrelando filmes que marcaram época. Mazzaropi, Jerry Lewis, o Gordo e o Magro, Cantinflas e o grande Charles Chaplin provocavam gargalhadas no público que quase faziam o cinema vir abaixo. Já os desenhos animados da “Disney”, divertiam a criançada.

Filmes de bang-bang, como “Dólar furado” protagonizado por Giuliano Gemma e “Django”, com Franco Nero, eram os preferidos naquele tempo. Nas noites em que eles foram exibidos, as pessoas fizeram longas filas na calçada, tão longas que chegaram a dar a volta no quarteirão.

Além disso tudo, havia também as matinês. Domingo após o almoço era uma verdadeira festa. A algazarra começava com um comércio intenso promovido pela molecada, de gibis e figurinhas com o Fantasma, Mandrake, Super-Homem, Batman, Winnetou, Mão de Ferro, Zorro, Tarzan e muitos outros sob a marquise do Cine Guaíra. Depois, todos entravam na sala para ver e aplaudir as façanhas dos mesmos personagens que encontravam nos quadrinhos.

A maior tristeza para nós adolescentes era constatar que certo filme era proibido para menores de 18 anos. Era um custo danado driblar a censura e dobrar a dona Terezinha na portaria para assistir filmes tais como: Romeu e Julieta, de Franco Zerfirelli e O Exorcista, de William Friedkin, com roteiro de William Peter Blatty.

As trilhas sonoras também encantavam. Como esquecer os temas de filmes como: “Os Girassóis da Rússia”, de Henry Mancini, “E o vento levou”, de Max Steiner, “Crown, o magnífico”, de Michel Legrand, “Volta ao mundo em oitenta dias”, de Victor Young, “Love Story”, de Francis Lai, “Romeu e Julieta”, de Nino Rota, “Doutor Jivago”, de Maurice Jarre, “Era uma vez no oeste”, de Ennio Moricone e as aberturas dos filmes do famoso agente secreto inglês James Bond “007”, de John Barry!

Todos os adolescentes também iam ao cinema para namorar. Era no escurinho do cinema que a gente encontrava coragem para pegar na mão de uma garota, beijar a namorada e descobrir uma das melhores coisas da vida. Muitos de nós tivemos inúmeras aventuras amorosas no Cine Guaíra, apesar da preocupação constante de sermos surpreendidos com a lanterninha do seu Valdemar ou do seu Vicente Caputti!

Infelizmente, tudo isso acabou. Com o desenvolvimento da televisão e mais tarde do vídeo cassete, os cinemas foram todos desativados, em quase todas as cidades pequenas do interior e o mesmo aconteceu com o velho Cine Guaíra. Os bons filmes que vieram mais tarde dirigidos por Spielberg, Wood Allen, Martin Scorsese, e os filmes “Guerra nas estrelas” de George Lucas, “Dança com lobos” de Kevin Costner, “Titanic”, de James Cameron e tantos outros, tiveram quer ser vistos em outras cidades ou por outros meios.

É claro que todos aqueles exibidos e todos os seus astros e estrelas contribuíram de uma forma ou de outra para a formação, o amadurecimento e o desenvolvimento cultural de várias gerações.

Hoje, quando penso nisso tudo e tenho essas recordações, o que me toca realmente e me provoca essa saudade gostosa do Cine Guaíra diz respeito a tudo o que ele representava na época: uma velha e singela casa de espetáculos, fábrica mágica de fazer sonhos, divertindo, emocionando e afastando as pessoas comuns de seus cotidianos letárgicos. Ele deu asas às imaginações e iluminou as mentes de todos nós que vivíamos numa cidadezinha perdida no fim do mundo.

Por Camilo Geraldo Garcia Prado


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