As “tralhas” de Lula

Editorial
Guaíra, 6 de novembro de 2016 - 07h38

Para Lula, o acervo que ele levou do Palácio e que não lhe pertence, são “tralhas”.

Vítima de sua super-popularidade à época, o mandatário brasileiro recebeu de todos os cantos do país quase 370.000 cartas, além de camisetas, bonés, diversos retratos pintados à mão – em traços às vezes de gosto duvidoso – pulseiras, esculturas, dezenas de adornos indígenas, três ovos de avestruz pintados e até a cabeça empalhada de um surubim, um dos principais peixes de água doce do Brasil.

Tem até jogo de baralho e colete de moto táxi. Tudo isso é parte de um acervo hoje lacrado pela Polícia Federal, depois de entrar nas investigações da Operação Lava Jato, que apura a corrupção na Petrobras. Para o Ministério Público Federal, os presentes de Lula foram mantidos em um depósito pago com dinheiro de propina da OAS, uma das construtoras investigadas no esquema. Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e réu nas investigações, nega que tenha havido qualquer dinheiro ilícito nesta operação.

Da viagem à África do Sul, na Copa do Mundo de 2010, vieram duas vuvuzelas de plástico com miçangas coloridas na parte exterior. Da Arábia Saudita, uma pasta executiva de couro sintético verde, de aparência meio anos 70, dada por um magnata local. De El Salvador, a chave da cidade de San Salvador, em metal dourado. Do Japão, uma chaleira em cerâmica. E, de Moçambique, dois tronos esculpidos em madeira maciça. Mas foi do Brasil mesmo que veio a maioria dos presentes recebidos pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante os oito anos de seus dois mandatos presidenciais (entre 2003 e 2010).

A parte mais valiosa do acervo, composta por objetos de ouro e pedras preciosas, por exemplo, foi mandada para o Banco do Brasil. O restante deixou o Palácio do Planalto em janeiro de 2011 em dez caminhões de mudança ainda sem um rumo muito definitivo. Paulo Okamotto não havia conseguido um lugar para colocar aquela pilha de objetos e os caminhões levaram tudo para um depósito da própria Granero, que fez a mudança. Era para ser uma solução provisória, segundo ele. “A ideia nunca foi deixar guardado. A gente queria catalogar, classificar esse acervo e achar um lugar para expor”, conta.

“Tem gente que fala que é tranqueira… Mas quando você começa a analisar, por trás de uma carta tem uma história, um drama, uma esperança, um desabafo. Mais cedo ou mais tarde, você vai poder medir a alma do povo brasileiro. Vai poder ver como era a relação do governante com os governados. É um negócio fantástico. Aqueles presentes… As pessoas demoraram horas, semanas e meses fazendo coisas pra homenagear uma pessoa de que gostam. Culturalmente tem um valor astronômico”, diz ele.

Já Dilma Rousseff, que deixou o cargo neste ano após o impeachment, levou seus presentes em quatro caminhões para Porto Alegre, onde tem um apartamento. Tudo permanece encaixotado e guardado.


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