Desvio

Editorial
Guaíra, 1 de março de 2017 - 08h03

Essa história é sobre o poder de um olhar atento e também sobre a importância dos portais de transparência, que forçam a publicação de informações que muitos gestores gostariam de manter escondidas. Um exemplo bem marcante foi a divulgação de um desvio de R$ 7,3 milhões – dinheiro que deveria servir para custear pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e que levou 29 pessoas para a prisão.

As informações que revelavam a irregularidade estavam disponíveis na internet, ao alcance de quem tivesse o interesse e a curiosidade para seguir uma trilha de pistas.

Débora Sögur Hous, estudante de Jornalismo da UFPR de 25 anos, começou a consultar o Portal da Transparência do governo federal por um motivo pessoal: bolsista, ela recorria ao site todos os meses para saber se os valores haviam sido depositados. Aos poucos, foi entendendo a lógica de publicação das informações e passou a perceber pontos fora da curva, ou seja, dados que escapavam do padrão. Eram depósitos de valores bem acima da média, feitos em ordens bancárias a um pequeno grupo de pessoas (enquanto os demais casos somavam centenas de destinatários na mesma autorização de pagamento).

As primeiras suspeitas surgiram em 2014, mas Débora ainda não conseguia sistematizar as informações. Assim, sem sair de casa, consultando dados públicos, ela descobriu que uma cabeleireira, um taxista e uma artesã, por exemplo, estavam na lista dos beneficiados pelas bolsas de pesquisa de mais altos valores na universidade.

Quando estourou a operação Research, da Polícia Federal, no dia 15 de fevereiro, prendendo 29 pessoas envolvidas no esquema, a Gazeta do Povo estava na fase de propiciar aos supostos bolsistas o direito de explicar quais pesquisas fizeram. Alguns disseram que não tinham qualquer vínculo com a UFPR e outros tentaram justificar os recebimentos, dizendo que haviam prestado serviços. Mais tarde, viriam a público os indícios levantados pela PF de que a servidora Conceição Abadia de Abreu Mendonça, responsável pela gestão do orçamento da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPR, havia montado uma rede, ora destinando recursos para conhecidos, que ficam com uma pequena parte do valor, ora pagando despesas pessoais – como honorários advocatícios, roupas e joias – depositando o valor das bolsas na conta dos prestadores de serviço.

Entenderam agora a importância de se acompanhar os gastos do governo através do portal da transparência?


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