A montagem do teatro político

Opinião
Guaíra, 1 de julho de 2016 - 10h24

A política é um espaço de ambições, vaidades, devaneios e sonhos. Regra geral, os políticos se esforçam para construir uma imagem e receber o aplauso das massas. Essa meta tem sido lapidada e intensificada ao longo das décadas que marcam a instalação e a evolução do Estado-Espetáculo, no qual os atores políticos exibem suas performances como representantes da sociedade ou procuram apresentar as qualidades de gestores, feitores públicos, construtores do progresso. Não há exagero quando se diz que os políticos, ao estilo de Narciso, tentam “fazer da própria vida a sua obra prima”, objetivo que Mussolini encontrava nele  mesmo. O narcisismo, aliás, é uma das mais psicológicas características da vida pública. Luis XIV o apreciava, quando, em suas roupas esplendorosas, desfilava em seu cavalo cravejado de diamantes pelos jardins de Versalhes. Hitler era outro que compunha gestos e rompantes sonoros, auxiliado por Goebbels, seu ministro da propaganda, e assistido por um especialista em oratória, chamado de Brasil. Uma de suas manias era comentar e ouvir loas a suas feéricas perorações. A extravagância no campo da semântica e da estética tem sido um matiz da política desde tempos imemoriais. Diz-se que Nero, o paranoico e sanguinolento imperador romano, entre 54 e 68 da era cristã, enquanto Roma desaparecia sob gigantesco incêndio, estaria cantando e tocando lira, para exclamar no instante do suicídio: “que belo artista o mundo vai perder”. Na era moderna, o vedetismo ganha os espaços e tempos da mídia eletrônica, onde os novos Narcisos procuram se apresentar como heróis, defensores das comunidades, primeiros e únicos exemplares da administração pública. São cultores da autoglorificação, iluminados pela fosforescência do marketing. Todos, com raras exceções, se submetem à armadilha da propaganda, como poderemos constatar a partir de meados de agosto, por ocasião da propaganda eleitoral. Nesse ponto, convém lembrar que as mídias passarão a participar do jogo competitivo das candidaturas. A telepolítica entrará por nossos olhos e ouvidos durante 35 dias da exposição midiática que mostrará as “peças” (propostas, programas, ideias) dos atores políticos. Os telespectadores que em 2 de outubro darão seu veredito nas urnas farão interessante exercício: descobrir qual ator(atriz) com melhor desempenho ou, ainda, quem transmitirá a verdade, entre versões a serem ensaiadas e recitadas nos programas eleitorais. Quais serão os mais verdadeiros, os mais ilusionistas, os mais autênticos e menos canastrões? De pronto, vai aqui a lembrança das escolas dramáticas em que alguns poderão se inspirar. A primeira é a de Constantin Stanislavsky, que ensina: o intérprete se exercita para experimentar os sentimentos do papel, “revivendo-os”. Nesse caso, o ator se anula diante de seu personagem. A segunda escola é a do teatro chinês, onde o ator mascarado corre e dança no palco, passando a impressão de não experimentar nenhuma das impressões de seu personagem, não se identificando com ele. Nesse caso, passa a falar como uma terceira pessoa, distante, impassível. Ou seja, não quer envolver a plateia com emoção. E sim despertá-la para a reflexão. A terceira escola é a de Lee Strasberg, que fundou o Actor’s Studio, que formou monstros sagrados como Marlon Brando, Paul Newman e James Dean. O ator recorre ao subconsciente, à imaginação, expressando na cena sua experiência pessoal, dando tudo de si para puxar as emoções da audiência. Ele cultiva e exibe o seu EU. Ora, não sejamos tão otimistas. Os nossos atores (e atrizes) não conseguirão se inserir em tais escolas. Seja por falta de qualidades pessoais, seja pelo mimetismo que caracteriza nosso marketing político. Ou seja, um imitará o outro. E assim todos se assemelharão. A receita dos programas eleitorais será esta: falas cheias de promessas (algumas mirabolantes); povo falando (cenas produzidas apenas com eleitores favoráveis) sobre as qualidades dos candidatos; efeitos cinematográficos em programas mais sofisticados (coisa que poucos conseguirão face aos parcos recursos das campanhas neste ano); pegadinhas psicológicas para “agarrar” o eleitor, provocando sua atenção, usando linguagem mais coloquial e até apelativa, à moda Tiririca: “pior que tá não fica”. Sejamos, agora, um  pouquinho otimistas. A paisagem devastada da política será um dique de contenção para as ondas de mistificação. O copo das falsidades e mentiras transborda. A ética e a moral, tão sumidas dos mapas, passam a frequentar o sistema cognitivo dos eleitores. A hora, portanto, aconselha que atores políticos recolham seus desenhos magníficos de município, proponham ideias e projetos críveis e realizáveis. E, sobretudo, demonstrem como irão desenvolvê-los. Nada de obras faraônicas. Os faraós deste século 21 não estão com nada. O fausto, a opulência, o resplendor, a exuberância não combinam com este ciclo de grandes carências. O Brasil é o país do desperdício. Jogam-se no lixo anualmente R$ 3,6 trilhões com obras inacabadas, desvios, custo Brasil da ineficiência, roubos, propinas, superfaturamento.  Se a montanha de riquezas perdidas pudesse ser preserva­da, o País estaria, há tempos, no ranking mais avançado das potências. Candidatos,  querem uma boa proposta para os municípios? Eliminar o Produto Nacional Bruto do Esbanjamento (PNBE). Ordem e disciplina nos gastos. Rigor no preceito constitucional da economicidade e moralidade. Uso racional do espaço público. Coor­denação eficaz dos planos de obras. Qualificação e treinamento de quadros funcionais. Elevação geral do nível educacional da popula­ção. As vias, todas com sua importância no conjunto, se completam. Preparem-se, candidatos, para uma caminhada que será acompanhada muito atentamente pela sociedade. Os tempos mudaram. Estamos fincando nessa terra bruta os pilares de uma democracia participativa. Onde o cidadão não quer pagar caro por uma peça grotesca no teatro político.


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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

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