“Acabou o meu mundo”

Opinião
Guaíra, 2 de fevereiro de 2016 - 10h11

Essa foi a frase proferida pelo índio Arcelino Pinto. Esse foi o grito que brotou do coração de um pai desolado. Mataram seu filho. Um menino de 2 anos e meio. O curumim Vítor.  Era forte o sol do meio-dia. Brincava Vítor sob uma árvore, na companhia da mãe que, pacientemente, o alimentava. O pai havia saído com os dois filhos mais velhos para vender o produto do seu trabalho. São índios artesãos. Vivem da sua arte. Da sua cultura. Das suas tradições. No verão, deslocam-se para o litoral a fim de vender seu artesanato. Neste ano, a família sonhava em comprar uma geladeira com o dinheiro das vendas.   Hora do almoço. Arcelino parou com os filhos para comer algo. Soube da tragédia pela TV pendurada no teto de um bar. Olhos fitos na tela, ficou atônito diante da reportagem que falava sobre o brutal assassinato de uma criança indígena, sem se dar conta de que a vítima era o seu pequeno Vítor. Sentiu dor ao imaginar o que a família daquela criança estaria sofrendo. Mal sabia que era a sua família que vivia aquele drama. Seu filho apenas brincava feliz, à sombra daquela árvore. Alguém se aproximou, acariciou a criança e a degolou com um estilete! A mãe, em desespero, pegou o filho no colo, chorou o choro mais doído de sua vida. Conseguiu alguma ajuda, mas não evitou a morte de seu filho. Conta a pobre índia que tudo pareceu um sonho. Não era. Era um pesadelo. Os irmãos sentem falta do caçula. O povo Kaingang chora a partida prematura de seu membro. Indignado. Ferido. Revoltado.   Como pode alguém ser capaz de uma atrocidade dessas?  Para onde vamos? Não é só o mundo desse pai que acabou. Os mundos nossos acabam quando vivemos essas experiências. Tristes experiências de ausência de amor. Horrores gerados no horror do ódio. Infelizmente, o mal existe. Mas ainda há bondade por aí. Naquelas tribos e nas nossas. Continuo acreditando que o bem é mais forte do que o mal. Apesar de tudo o que vejo, continuo acreditando.


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Gabriel Chalita

Escritor e professor

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