Amor de mãe cura tudo?

Opinião
Guaíra, 15 de abril de 2026 - 16h40

Amor de mãe cura tudo.

Essa é uma das frases mais repetidas — e raramente questionada.

A crença de que o amor materno, por si só, é suficiente, é uma das maiores injustiças dentro da já complexa relação entre mãe e filha. A partir daí, a mãe precisa ser tudo. Forte o tempo todo. Segura. Sem falhas. Sem dores. Sem dúvidas. Precisa dar conta, proteger, resolver… sempre. E a filha? Precisa ser grata. Compreensiva. Resiliente. Precisa entender, aceitar, perdoar.

Relações idealizadas são carregadas de culpa, peso e expectativas inatingíveis. O problema começa quando essa idealização sufoca a realidade. É preciso aceitar que nem todo amor acolhe. Nem toda presença é presente — há quem esteja ao lado sem nunca ter chegado perto.

Há relações marcadas por controle disfarçado de preocupação, por silêncios que punem mais do que gritos e por uma ausência emocional que não vem necessariamente da falta de amor, mas da forma como ele se manifesta.

É nesse espaço que se formam inseguranças profundas. Pessoas que aprendem a se ajustar, a se diminuir, a se moldar, implorando para serem vistas e que, sem perceber, seguem em busca de validação no amor, no trabalho e nas relações.

Parece errado admitir que o amor também pode ferir. Mas pode. E reconhecer isso não é ingratidão e nem diminui o amor, só o torna mais leve e possível. Porque, no fim, se o amor de mãe nem sempre cura tudo, é a humanização que começa a curar a dor que nasce dele.

Humanizar é reconhecer que, às vezes, quem feriu também estava ferida — e que por trás da mãe existe uma mulher real, com limites, medos e inseguranças. Mães que controlam, cobram ou silenciam, carregam histórias que não foram cuidadas. São mulheres que também não foram acolhidas, que tiveram que aprender a dar o que nunca receberam por inteiro.

Quando a idealização morre, a relação nasce. No fim, não é sobre culpar nem absolver. É sobre enxergar. Enxergar que nem todo amor soube amar do jeito que se precisava ou se esperava. E, sim, isso dói e marca — mas não precisa aprisionar.

Chega um ponto em que a história deixa de ser sobre o que faltou e passa a ser sobre o que se escolhe fazer com isso.

É essa escolha que rompe o ciclo e permite parar de buscar fora o que só pode ser construído dentro. É quando já não se espera mais ser visto — porque, aos poucos, se aprende a se enxergar.

*Fernanda Salerno é professora e autora de “O Amor Que a Dor Pariu”, livro autobiográfico que nasceu do processo de reconstrução afetiva com a mãe.


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Fernanda Salerno

Fernanda Salerno é professora e autora de “O Amor Que a Dor Pariu”, livro autobiográfico que nasceu do processo de reconstrução afetiva com a mãe.

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