O chefe

Opinião
Guaíra, 2 de abril de 2017 - 07h47

Aquela república de estudantes era muito respeitada pelos vizinhos, em Botucatu-SP. Estes, sempre muito observadores, sabiam que, lá, a ordem era mantida sempre. Não só ela, mas sobretudo o silêncio, essencial para o estudo pois todos os cinco moradores eram excelentes alunos da turma pioneira da antiga FCMB de Botucatu-SP, já no segundo ano de Medicina, em 1964.

Algo intrigante, entretanto, escapava à compreensão dos vizinhos: um ruído de lata arrastada que ocasionalmente era ouvido no quintal da república quando os estudantes estavam ausentes.

O mês de março transcorria normalmente e abril iniciou com abruptos transtornos políticos que, subitamente, mudaram os rumos da vida nacional. Era o novo governo militar que impunha ordens muito mais ostensivas que as colaborativas que imperavam naquela república exemplar, naquela então pacata Botucatu-SP.

O ruído intrigante de lata arrastada continuou sendo ouvido independente do regime político instaurado no país. Os vizinhos, sempre atenciosos, ficavam intrigados com aquilo. Os estudantes daquela instituição estavam intrigados – sim – com outros ruídos.

Muito conscientes da gravidade da nova situação política brasileira, os alunos da FCMBB participavam intensamente dos debates e atividades de resistência. Foi nesse período que os vizinhos perceberam que, curiosamente, a lata deixara de ser arrastada no quintal da república. Algo havia acontecido. Seria algum segredo estratégico? Fuga da assombração?

Uma semana após, correu outra notícia muito mais preocupante. Toda a vizinhança ficou sabendo que o Chefe estava na república. Essa novidade foi anunciada com muito cuidado, claro, mas o inevitável aconteceu.

A noticia caiu (até hoje não se sabe como) no conhecimento do doutor delegado de polícia local e toda a corporação foi posta no encalço do tal Chefe, que, supostamente, só podia ser subversivo.

Não deu outra. Montaram campana no entorno da república, inspecionaram o quintal da casa e… Surpresa! Lá encontraram o peludo Chefe com a sua lata entre os dentes esperando a ração do almoço que, invariavelmente, só chegava no jantar. As consequências foram mais complicadas, entretanto, para o dono do Chefe.

Surpreendentemente, foi intimado a comparecer na delegacia para explicar por que protegia e gostava tanto do Chefe. Esta intrigante interrogação permanece até hoje.

Aquele belo pastor alemão capa-preta de estimação do Aristeu não merecia tal regime. Nem o alimentar e muito menos o político recém-instalado em 31 de março.

Mesmo assim, a notícia correu em todo o Brasil: “Encontraram o CHEFE em Botucatu”. Ficamos famosos…  


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Francisco Habermann

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