Os primórdios da educação em Guaíra – Parte II

Opinião
Guaíra, 29 de novembro de 2017 - 13h51

… Em Guaíra as Escolas Reunidas adquiriram uma configuração um pouco mais complexa que a escola isolada, uma vez que passou haver a organização do tempo escolar, com horários para entradas e saídas dos alunos e passou-se também a seguir um programa de ensino – embora mais reduzido que dos grupos escolares, com o ensino primário de apenas dois anos, inicialmente, e de três anos depois de algum tempo. Passou-se também a obedecer um calendário escolar, com a realização de festas cívicas ao longo do ano letivo e exames uma vez ao ano, aplicados pelo inspetor de ensino, com a finalidade de aprovar ou reprovar os alunos. Com respeito às disciplinas estudadas, eram elas direcionadas para o conhecimento da língua pátria: Linguagem e Leitura, conhecimentos matemáticos: Aritmética e os conhecimentos sociais formados pelo ensino de Geografia e História. Havia também o ensino de Caligrafia, para o desenvolvimento do controle motor fino e o ensino de trabalhos manuais para as meninas. Vale salientar que os índices de reprovações eram bastante elevados. Embora o aluno que repetisse representasse um gasto extra que preocupava a escola, a educação então tinha um viés excludente e parte expressiva dos alunos reprovados deixava de estudar.

De acordo com relatos feitos através de pesquisas orais, das crianças era exigida pelos professores das Escolas Reunidas de Guaíra, uma rígida disciplina, com observação a assiduidade, ordem, asseio e obediência.

Embora parecesse uma iniciativa positiva, na verdade “as Escolas Reunidas serviram como uma espécie de tapa buraco na instrução pública estadual”. Para a elevação das Escolas Reunidas à categoria de grupo escolar e o consequente aumento de investimentos, o governo paulista estabeleceu uma série de normas e exigia um número de alunos nem sempre existente em uma determinada localidade.

A elevação das Escolas Reunidas de Guaíra à categoria de Grupo Escolar, somente ocorreu em 1930, por meio do Decreto Estadual de 27 de fevereiro daquele ano e sua instalação se verificou em 19 de março de 1930, um ano depois da emancipação político-administrativa da cidade e dez anos após a instalação das Escolas Reunidas. A sua criação pelo governo paulista se deu, após reivindicação encetada por chefes políticos locais, ligados ao Partido Republicano Paulista, e por abaixo-assinados por eles organizados e apresentados a deputados estaduais correligionários.

Os grupos escolares contribuíram para a introdução dos novos mecanismos e divisão do controle do trabalho docente. Com os grupos escolares passaram existir um programa mais elaborado e iniciou-se também o processo de constituição da escola primária moderna, seriada, graduada e limitada por espaços e tempos específicos. Além disso, para o estabelecimento do grupo escolar, era de grande importância aspectos como construção de prédios considerados apropriados para a finalidade educativa, o trabalho escolar apoiado no destaque conferido aos métodos pedagógicos, entre os quais se situava, especialmente, o método intuitivo; a divisão e a hierarquização da atuação dos profissionais envolvidos no cotidiano da escola e a racionalização dos tempos escolares.

Vale ressaltar que também para a instituição do curso ginasial, novamente foi necessária uma forte pressão junto aos políticos locais – da região e do estado -, com a realização, inclusive de abaixo-assinados, até a sua criação 22 anos mais tarde.

Até a década de 30 o sistema brasileiro fora pautado de forma dualista, por um lado estavam as escolas primárias para os pobres e por outro, para os ricos, o ensino secundário que deveria preparar o aluno para o ensino superior. Para ingressar ao curso ginasial era necessária a realização do exame de admissão que, por sua vez, peneirava grande parte dos alunos cujos pais não tinham condições financeiras de lhes oferecer um curso preparatório para o exame, dado geralmente por meio de aulas particulares. Além disso, a escola primária era também altamente seletista, havendo um alto índice de reprovações.

Com o desenvolvimento do capitalismo iniciaram as lutas entre classes, que na área educacional teve como meta proporcionar o ensino secundário e superior às camadas mais excluídas. Com muita pressão o governo foi cedendo aos poucos e ampliando o acesso ao ensino, porém a qualidade ainda era insatisfatória e a escola continuava desestruturada.

A cidade de Guaíra contava, em 1948, com um grupo escolar, já naquela altura denominado Escola Estadual Francisco Gomes de Souza, e nove escolas isoladas estaduais e municipais, localizadas na zona rural, onde se encontravam matriculados 810 alunos. Desde muitos anos aspirava o povo de Guaíra pelo estabelecimento de um curso ginasial na cidade. Contando o município, àquela época, com apenas um grupo escolar em seu núcleo urbano, os pais que desejassem dar prosseguimento aos estudos de seus filhos, tinham necessariamente de enviá-los para cidades maiores. Naquele tempo, muitas famílias de alunos guairenses não contavam com recursos financeiros suficientes para custear a continuidade dos estudos de seus filhos, e somente as mais ricas assim procediam.

Em 1952, depois de um longo período de luta intrepidamente empreendida pela população da cidade, pressionando as autoridades políticas locais e esses, por sua vez os deputados da região, o governador paulista, que visitara a cidade no ano anterior, autorizou o estabelecimento do curso ginasial, em Guaíra, que passou a funcionar no antigo prédio das Escolas Reunidas, onde hoje está a Praça dos Estudantes. Anos mais tarde, com a ampliação do prédio da Escola Francisco Gomes de Souza, essa passou a contar com os cursos primário e ginasial. Já a inauguração do prédio da Escola Enoch Garcia Leal, que além do ginasial, passou a contar também com o colegial – e por alguns anos até com o curso Normal -, se deu em 1961.


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Marcelo Borba de Freitas

Marcelo Borba de Freitas é historiador e gestor escolar   

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