
Os dados do Centro Nacional de Monitoramento e Desastres Naturais não deixam margem para dúvida. Desde 2020, os alertas de eventos extremos dispararam, atingindo o ápice em 2024, com mais de 3.600 registros. Não se trata mais de episódios isolados, mas de um padrão que afeta diretamente a vida urbana e, de forma ainda mais brutal, o agronegócio brasileiro. Lavouras são perdidas em questão de horas, rebanhos inteiros são dizimados e o prejuízo não se limita ao produtor, ele chega à mesa do consumidor.
Diante desse cenário, seria lógico esperar o fortalecimento da principal política pública de mitigação de riscos no campo. O que se vê, no entanto, é o enfraquecimento progressivo do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. A queda de quase 55% na área segurada em relação a 2024 revela mais do que um ajuste técnico. Revela uma desconexão entre o discurso de estabilidade econômica e a realidade enfrentada por quem depende do clima para produzir.
O seguro rural não é um privilégio, é um instrumento básico de previsibilidade. Países com agricultura forte entenderam isso há décadas. No Brasil, ao contrário, a cobertura que já foi próxima de 30% da área produtiva em 2021 deve terminar 2025 em torno de apenas 5%. Um número tímido para um país continental, altamente exposto a riscos climáticos e que insiste em apostar na sorte como estratégia.
O orçamento previsto para 2026 aprofunda essa fragilidade. Com R$ 1,01 bilhão destinados ao programa, cerca de R$ 500 milhões a menos do que no ano anterior, o governo ignora os alertas vindos do campo. O setor produtivo pleiteava R$ 4 bilhões, valor compatível com a dimensão do problema. O corte feito para cumprir a meta fiscal pode até equilibrar planilhas no curto prazo, mas transfere o risco diretamente para quem produz e, inevitavelmente, para a economia como um todo.
O veto presidencial ao trecho da Lei de Diretrizes Orçamentárias que impediria novos cortes no Seguro Rural é simbólico. Ao priorizar a chamada flexibilidade orçamentária, o governo opta por manter aberta a possibilidade de contingenciamento justamente em uma política criada para reduzir incertezas. Na prática, o produtor fica sem garantia de proteção em um ambiente já marcado por instabilidade climática e volatilidade de mercado.
A reação do setor não é apenas corporativista, é um alerta institucional. A mobilização da Frente Parlamentar da Agropecuária para derrubar o veto expõe o risco de se tratar o seguro rural como gasto e não como investimento. Sem proteção, o produtor reduz área plantada, posterga tecnologia e encarece o crédito. O efeito cascata chega rápido à inflação, ao abastecimento e à balança comercial.
Em tempos de eventos extremos cada vez mais frequentes, enfraquecer o seguro rural é insistir em uma lógica ultrapassada. O clima mudou. A política pública, ao que tudo indica, ainda não.

