Se Tiradentes estivesse vivo hoje, talvez não fosse celebrado. Provavelmente seria ignorado, ridicularizado ou tratado como inconveniente. É mais confortável transformar mártires em estátuas do que encarar o incômodo que suas ideias provocam quando atravessam o tempo e chegam ao presente.
O 21 de abril virou feriado. Descanso. Viagem. Praia cheia. Mas a pergunta que realmente importa quase nunca entra na conversa: o que, de fato, você está comemorando?
Joaquim José da Silva Xavier não morreu por um gesto simbólico. Foi executado por desafiar um sistema que drenava riqueza, concentrava poder e tratava a população como peça secundária. A Inconfidência Mineira não foi um ato isolado. Foi um grito contra um modelo que parecia intocável.
Agora avance algumas páginas na história.
Hoje, você reclama. Mas o que, de fato, muda?
A indignação existe, mas é diluída. O debate virou entretenimento raso disfarçado de posicionamento. A opinião virou reflexo automático. Nunca se opinou tanto. Nunca se transformou tão pouco.
A sensação de participação muitas vezes não passa de uma ilusão bem construída, confortável o suficiente para substituir a ação real.
Tiradentes não diria o que é fácil. Diria o que é necessário. E isso quase sempre cobra um preço.
A pergunta incômoda permanece: o que você está fazendo, hoje, com a liberdade que ele ajudou a inspirar?
Porque liberdade não é só direito. É responsabilidade. É escolha. É ação. E, principalmente, é desconforto. Ela exige posicionamento quando o silêncio seria mais conveniente. Exige coerência quando a conveniência fala mais alto.
Transformar Tiradentes em herói é fácil. Difícil é encarar o que ele representa. Mais difícil ainda é sair do automático. E mais raro ainda é deixar de ser apenas mais um na fila de opiniões que não mudam nada.
Neste 21 de abril, o convite não é à celebração vazia. É ao incômodo.
Porque liberdade ignorada também se perde. E talvez seja exatamente por isso que ela nunca tenha cabido em um feriado.

