É assim que uma felicidade barata ganha juros altos. Ser feliz nunca custou tanto quanto hoje, não porque a felicidade tenha ficado mais cara, mas porque acrescentamos à conta tudo aquilo que ela nunca exigiu: comparação, aparência, ansiedade e a necessidade permanente de provar que vencemos.
Em algum momento, viver bem deixou de bastar. Era preciso parecer bem, exibir conquistas e convencer os outros de que havíamos chegado a algum lugar, mesmo quando, por dentro, ainda não sabíamos exatamente onde estávamos. Passamos a acreditar que a felicidade virá depois da próxima compra, da promoção, da viagem ou daquele reconhecimento que nunca chega na medida esperada.
Não há pecado algum em buscar conforto, crescer profissionalmente ou melhorar de vida. O problema começa quando deixamos de usar as coisas e passamos a depender delas para acreditar que valemos mais. A casa deixa de ser abrigo e vira demonstração de sucesso. O carro deixa de ser transporte e se transforma em medida de importância. A viagem deixa de ser experiência e passa a funcionar como recibo de uma felicidade que precisa ser conferida pelos outros.
É aí que a conta cresce. Acrescentamos comparação, vaidade e necessidade de aprovação até que nenhuma conquista seja suficiente. A satisfação dura pouco porque não nasceu apenas de um desejo verdadeiro, mas da tentativa de acompanhar uma corrida cujo ponto de chegada muda sempre que alguém parece estar à nossa frente. Já não queremos apenas viver melhor. Precisamos que os outros percebam isso.
As redes sociais apenas deram palco a essa insegurança. Passamos a comparar nossa vida inteira com alguns segundos cuidadosamente escolhidos da vida alheia, como se felicidade fosse aquilo que cabe em uma fotografia. O pior não é acreditar que todos estão felizes. É começar a considerar pobre uma vida que talvez fosse apenas simples.
Há ainda uma cobrança mais profunda. A insatisfação também pode ser uma fuga, porque desejar permanentemente a próxima coisa nos poupa da obrigação de aprender a viver com a vida que já conquistamos. É mais fácil imaginar que tudo será melhor depois de uma nova compra do que admitir que certos vazios não são materiais. Há ausências que não pedem dinheiro. Pedem afeto, pertencimento, propósito e paz de consciência.
O preço mais alto dessa ilusão raramente aparece na fatura do cartão. Ele é pago com tempo, saúde e presença. Trabalhamos além do necessário para comprar coisas que quase não temos tempo de aproveitar, sacrificamos a convivência para oferecer conforto à família e transformamos o presente em uma sala de espera, como se a vida verdadeira ainda estivesse para começar.
Mas a vida não reembolsa o que foi usado como pagamento. Ela não devolve o tempo gasto tentando impressionar, os afetos adiados nem os dias consumidos por preocupações que logo perderão importância. Há pessoas capazes de pagar por quase tudo, mas que descobrem tarde demais que não podem recomprar aquilo que entregaram para conseguir pagar.
A felicidade continua aparecendo em lugares que não produzem espetáculo. Está na mesa em que ninguém precisa fingir, na casa onde o cansaço pode entrar sem pedir desculpas e na presença de alguém que permaneceria mesmo depois que tudo aquilo que impressiona deixasse de existir. Nada disso é pequeno. Pequena é a nossa capacidade de reconhecer grandeza naquilo que não pode ser exibido, parcelado ou transformado em símbolo de status.
A felicidade não ficou mais cara. Nós é que acrescentamos à conta tudo aquilo que ela nunca pediu. A felicidade sempre foi barata. Cara foi a conta que inventamos.

