Se a política fosse como os lobos, talvez houvesse mais escuta, porque seus uivos não são apenas ruídos. São comunicação, alerta, pertencimento. Lobos vivem em matilha porque entendem que sobreviver exige proximidade. Há presença no uivo. Há vida nele.
Mas, às vezes, a política prefere ser como a lua. Distante, silenciosa, observando tudo do alto como se o afastamento fosse sinal de grandeza. E talvez esteja aí um dos maiores enganos do poder: acreditar que permanecer acima é mais importante do que permanecer perto. Porque nem todo silêncio é sabedoria. Às vezes, é apenas ausência.
A lua pode até iluminar à distância, mas não caminha pelas ruas, não sente o desconforto das pessoas e não escuta aquilo que ecoa aqui embaixo. Já o lobo, imperfeito e exposto, ao menos responde ao mundo ao seu redor.
Talvez o problema da política moderna seja exatamente esse: o excesso de altura e a falta de proximidade. Lideranças passaram a acreditar que ouvir demais enfraquece, quando, na verdade, é justamente a escuta que mantém viva a conexão entre quem governa e quem vive a cidade todos os dias.
E talvez a democracia precise menos de figuras inalcançáveis e mais de gente disposta a ouvir o próprio tempo, mesmo quando ele chega de uma forma desconfortável. Cidades não se constroem no silêncio do céu. Constroem-se na presença de quem ainda sabe caminhar entre as pessoas.

