Existe uma diferença brutal entre ter voz e ter algo a dizer. A primeira é automática, a segunda é raríssima. Talvez por isso o mundo esteja tão barulhento. Sobram vozes, faltam conteúdos. O resultado é esse espetáculo cotidiano em que muita gente prefere se expor ao constrangimento do silêncio, como se falar qualquer coisa fosse melhor do que não falar nada. Não é.
Vivemos a era da opinião instantânea. Não é preciso saber, basta reagir. Não é preciso compreender, basta parecer convincente por alguns segundos. Forma-se, assim, uma avalanche de certezas frágeis, sustentadas mais pelo impulso do que por qualquer reflexão minimamente consistente.
Nesse ambiente, o silêncio passou a ser mal interpretado. Quem se cala parece ausente. Quem pensa antes de falar levanta suspeitas. Ainda assim, há um detalhe que escapa aos mais apressados: o silêncio raramente compromete. Já a fala precipitada tem o hábito quase infalível de expor exatamente aquilo que se tenta esconder.
Boa parte das certezas que circulam por aí não resistiria a cinco minutos de reflexão honesta. É nesse ponto que o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser estratégia. Enquanto a boca corre, a incoerência tropeça. E quando a palavra sai sem filtro, não revela apenas opinião, revela limite.
Falar exige muito menos esforço do que pensar. Talvez por isso tanta gente escolha o caminho mais fácil, ainda que ele conduza, quase sempre, à exposição das próprias limitações. Há ignorâncias que permaneceriam discretas se não fossem tão insistentes em se anunciar.
Em outro tempo, a cultura popular já ironizava esse contraste com a personagem Ofélia,(Programa Balança Mais Não Cai), que encerrava suas participações com uma frase quase solene: só abria a boca quando tinha certeza. O humor estava justamente na distância entre a afirmação e a prática. Hoje, o que era ironia parece ter sido invertido. Fala-se primeiro, pensa-se depois, e a certeza virou detalhe dispensável.
Isso não é um elogio à omissão. Há momentos em que o silêncio é erro e erro grave. Mas são exceções. Na maior parte do tempo, uma pausa a mais evitaria constrangimentos públicos, ruídos desnecessários e opiniões descartáveis.
A máxima “É melhor ficar em silêncio e ser considerado tolo do que falar e remover toda dúvida”, frequentemente atribuída a Abraham Lincoln e também associada a Mark Twain, continua desconfortavelmente atual por um motivo simples: nunca se falou tanto e nunca se pensou tão pouco antes de falar.

