Existe um erro que se repete em praticamente todo ciclo eleitoral: a pressa.
Mal uma eleição termina e alguns políticos já começam a agir como se a próxima estivesse batendo à porta. Em cidades onde o prefeito cumpre seu segundo mandato e não poderá disputar novamente, esse fenômeno costuma ficar ainda mais evidente. Surgem os pré-candidatos de ocasião, multiplicam-se as entrevistas, as aparições públicas e os discursos cuidadosamente ensaiados. É a velha tentativa de ocupar espaço antes dos adversários.
O problema é que política não é corrida de cem metros. Muitas vezes, quem dispara na frente apenas oferece mais tempo para que o eleitor observe seus passos.
Há quem ainda acredite que a população tenha memória curta. Talvez essa teoria tenha funcionado em outro tempo. Hoje, porém, tudo fica registrado. Discursos, promessas, alianças, mudanças de lado e contradições permanecem disponíveis para consulta. E, ao contrário do que alguns imaginam, o eleitor não analisa apenas aquilo que o político escolhe mostrar. Ele compara, confronta e lembra.
Em cidades menores isso é ainda mais evidente. O cidadão conhece não apenas o personagem das redes sociais, mas também sua trajetória. Sabe quem esteve presente quando era conveniente e quem desapareceu quando a situação exigia coragem. Sabe distinguir trabalho genuíno de marketing eleitoral antecipado.
É justamente aí que muitos cometem um erro estratégico. Na tentativa de construir uma narrativa de eficiência, acabam convidando a população a revisitar seu histórico completo. E nem sempre essa revisão produz o resultado esperado. Afinal, quando alguém passa tempo demais falando sobre suas qualidades, desperta a curiosidade sobre seus defeitos.
Existe ainda uma armadilha frequentemente ignorada. Quanto mais cedo um político entra em campanha informal, mais cedo também passa a ser avaliado como candidato. O tempo que deveria ser um aliado pode se transformar em um longo período de escrutínio público.
A ansiedade política costuma ser uma péssima conselheira. Quem inicia cedo demais uma campanha informal corre o risco de transformar visibilidade em desgaste. O excesso de exposição enfraquece a mensagem e transmite algo que nenhum candidato deseja: a impressão de que está mais preocupado com a próxima eleição do que com os problemas atuais da população.
Queimar a largada pode parecer demonstração de força. Na maioria das vezes, porém, é apenas um sintoma de insegurança. Quem realmente confia no próprio trabalho não precisa viver em campanha permanente. Resultados têm uma característica incômoda para os marqueteiros: falam sozinhos.
A verdade é que o tempo costuma ser cruel com quem aposta excessivamente na construção de personagens. Quanto mais cedo alguém se apresenta como solução inevitável, mais tempo oferece para que a realidade teste seu discurso.
No fim das contas, eleições não são vencidas por quem fala mais alto, aparece mais ou inicia a campanha primeiro. São vencidas por quem consegue sobreviver ao julgamento mais implacável da política: o julgamento da memória.
E a memória do eleitor, para desespero de alguns, costuma ser muito mais longa do que certos estrategistas imaginam. Afinal, a propaganda escolhe os melhores capítulos. O eleitor, quando quer decidir de verdade, lê o livro inteiro.

