Dói, não dói?
Todo ano a cena se repete: você abre o programa da Receita Federal e sente aquele soco no estômago. É o suor do seu trabalho se transformando em números que alimentam uma máquina que muitas vezes parece trabalhar contra você. É impossível não sentir revolta ao ler sobre banquetes de lagosta, auxílios indecentes, frotas de carros luxuosos e uma burocracia que devora o futuro do país enquanto devolve serviços públicos precários.
A sua indignação é legítima. Mas aqui vai uma verdade desconfortável: reclamar sem agir é apenas barulho; escolher para onde o dinheiro vai é poder.
Enquanto você gasta energia nas redes sociais amaldiçoando o destino dos seus impostos, uma oportunidade de ouro e de uma simplicidade desconcertante passa despercebida bem debaixo do seu nariz. Existe uma parte do Leão que você pode domar. Existe uma fatia desse imposto que não precisa ir para o abismo de Brasília. Ela pode ficar no parquinho da esquina, no asilo da sua rua ou no curso técnico que tira um jovem da criminalidade no seu bairro.
A grande jogada que poucos contam é que você não está tirando mais dinheiro do bolso. O dinheiro já saiu. Ele já é do Estado. A questão é: quem vai decidir o que fazer com ele? Você ou um burocrata que nunca pisou na sua cidade? Ao destinar parte do seu imposto devido para os Fundos da Criança, do Adolescente e do Idoso da sua região, você deixa de ser uma vítima passiva do sistema para se tornar um gestor direto. É o único momento do ano em que a lei te dá a caneta e diz: escolha onde o impacto deve acontecer.
É fácil se esconder atrás da narrativa de que nada funciona. É uma desculpa confortável para a omissão. Afinal, se nada funciona, não preciso fazer nada, certo? Errado. O resultado do Imposto Solidário é físico. Ele tem rosto. Ele tem nome. É a reforma daquela ala hospitalar que você pode visitar. É o projeto de judô que você vê as crianças frequentando à tarde. Quando o dinheiro fica na sua cidade, ele perde o anonimato e ganha cobrança. É exatamente por isso que muita gente foge, porque acompanhar o resultado exige que você se importe de verdade.
A imagem do Leão sempre foi usada para causar medo e para representar a voracidade do fisco. Mas e se ele fosse o guardião da sua comunidade? Se você tem imposto a pagar, você tem uma arma na mão. Deixar que o total do seu imposto vá para o bolo geral sem questionar, enquanto você sabe que parte dele poderia estar salvando vidas a dois quarteirões da sua casa, não é apenas uma distração. É uma escolha deliberada.
Este ano mude o roteiro. Não entregue tudo de mãos beijadas para quem você critica. Exerça a sua soberania. Use o Imposto Solidário e transforme a sua revolta em tijolo, em merenda, em cuidado e em dignidade. No final das contas, o governo pode até desperdiçar o que você envia para longe, mas o que você deixa aqui na sua cidade é o que realmente define quem você é como cidadão. O Leão está esperando a sua ordem. Você vai comandar ou apenas obedecer?

