Aqui tem uma flor!

Opinião
Guaíra, 20 de agosto de 2015 - 15h53

Certo dia, Buda reuniu todos os seus discípulos e simpatizantes para um discurso. Isso era bem comum, o iluminado homem costumava dar longos discursos; passou a vida apresentando sua filosofia, andando por vários lugares onde as pessoas se amontoavam para ouvi-lo. Suas palavras eram avidamente esperadas pelos discípulos, sua argumentação era lúcida e direta. Os momentos de discurso eram sempre aguardados como encontros de reflexão em que Sidharta Gautama dava conhecimento e transmitia sabedoria à comunidade. Mas, naquele dia, seria diferente. Estavam todos reunidos aguardando suas palavras, algo muito semelhante ao que fazia Jesus no Monte das Oliveiras; então Buda chegou com uma flor na mão e não disse nenhuma palavra. Não era encontro de meditação, era um encontro de palestra, de doutrina, de ensinamentos e aprendizado… Então, por que ele estava ali em silêncio com uma flor na mão? E assim permaneceu durante horas. Seus discípulos ficaram em desconforto, tentando imaginar o que ele queria dizer com aquela flor? O silêncio muitas vezes faz as pessoas se sentirem constrangidas. Buda tinha entre seus discípulos homens que já eram considerados mestres, homens de mente ágil e raciocínio lógico, muitos deles, ao ver a flor, começaram a filosofar e racionalizar o que representava aquela flor e numa explicação para sua presença. No entanto, houve um discípulo chamado Mahakasiapa que simplesmente sorriu. Fato que deixou os outros discípulos mais constrangidos ainda. Seu sorriso era visto como uma falta de respeito. Ao perceber isto, riu mais ainda; ele não precisava mais de discursos ou argumentações, ele sabia que, por mais que se explique, ninguém entende o que não pode sentir. Neste momento a filosofia não servia para nada, quando se poderia apenas sentar e compartilhar o que não pode ser dito. E, em meio ao silêncio e ao constrangimento, a única coisa que se ouvia eram as risadas de Mahakasiapa. Ele não era erudito, não era considerado um mestre, não era filósofo, nem argumentador, pelo contrário, era um homem muito simples e rústico. Então Buda foi até ele e lhe entregou a flor dizendo: “Tudo que as palavras podem dizer, eu entreguei aos outros discípulos. E o que as palavras não podem dizer, eu entrego a você!”. Assim nasceu o Zen Budismo, uma forma de iluminação repentina, que está além das palavras, que se alcança apenas pelo meio da meditação, do silêncio e da contemplação. A flor representa o amor. Amor que está além das palavras e simboliza a verdade última, sublime e divina, inalcançável pela razão humana, mas que pode ser sentida e transmitida de pessoa para pessoa. Os grandes mestres são amantes de Deus, seus espíritos sagrados preferem silenciar diante da ignorância; pois sabem que nada pode explicar aquilo que apenas pode ser sentido. No dia 15 de novembro de 1908, Zélio de Moraes foi levado a uma reunião espírita, aonde estavam reunidos velhos senhores que seguiam o código de Kardec, a ciência dos espíritos, e antes mesmo de iniciar a sessão, Zélio de Moraes afirmou: “Aqui falta uma flor”. Zélio vai ao lado de fora, busca uma flor e coloca sobre a mesa. E mais uma vez na história da humanidade, a flor cria desconforto e constrangimento. Assim como o amor cria constrangimento aquém não o conhece, ou tem a oportunidade vivê-lo. Enquanto a ciência fala por meio da razão, da lógica e da filosofia, o amor fala por meio do sentimento, do canto e da poesia. O amor não necessita de argumentação, o amor é apenas para ser sentido. Por isso não buscamos na Umbanda, doutores, intelectuais, filósofos ou cientistas entre nossos guias. Buscamos o amor do Caboclo, do Preto-Velho, do Exu e da Criança. Algo acontece quando estamos em sua presença, algo especial que não temos como explicar por palavras, apenas sentir: assim é a Umbanda. Podemos dizer que Umbanda é amor, é a flor dos Orixás trazida pelos guias de luz, verdadeiros mestres que amam a Deus e não se importam com títulos, mas sim com a natureza, a poesia, o canto… e o sentimento! Axé! Texto baseado no artigo de Umbanda Sagrada do escritor e sacerdote Alexandre Cumino, publicado originalmente em novembro de 2011.


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Gustavo C. M. Souza

bacharel em história pela USP e dirigente do Centro Espírita de Umbanda Ogum Sete Espadas Para saber mais: Livro – Umbanda não é macumba, autor Alexandre Cumino, Ed. Madras; Blog – www.ceudeogumseteespadas.blogspot.com; www.facebook.com/jorge.guerreira

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