As Olimpíadas da exclusão

Opinião
Guaíra, 30 de julho de 2016 - 08h02

A poucos dias do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a expectativa e a ansiedade tomam conta dos milhões de expectadores em todo o mundo. Nesse momento, os sentimentos de nacionalismo e a paixão pelos mais variados esportes estão à flor da pele. Atletas e comissões técnicas fazem seus ajustes finais para, quem sabe, conquistar as tão almejadas medalhas olímpicas, porém nem todos na cidade maravilhosa compartilham o mesmo sentimento de alegria e comoção por causa dos jogos.

De acordo com a campanha “Rio 2016, o mapa da exclusão”, organizada pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, o verdadeiro legado dos jogos será uma cidade segregada e militarizada. Para dar viabilidade aos projetos de infraestrutura e proporcionar segurança aos turistas e comitivas que estarão no Rio, estão sendo realizadas, desde 2009, diversas remoções de famílias em pontos estratégicos, além de ocupação militar em favelas e obras com sérios impactos ambientais e violações do trabalho. Calcula-se que aproximadamente 77 mil pessoas foram retiradas de suas casas por motivos relacionados aos jogos do Rio, sendo o maior processo de remoção da história da cidade.

Para os organizadores do mapa, as remoções das famílias e a ocupação das favelas por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nunca tiveram a proposta de promover moradias dignas ou segurança à população pobre. O real objetivo foi criar um “cinturão de segurança” para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, evitando “transtornos” nos dois megaeventos. Além disso, a desproporcional valorização imobiliária vivenciada na cidade nas duas últimas décadas também pode ter contribuído para a desocupação de diversas áreas – como o entorno do Maracanã –, enriquecendo ainda mais as grandes empreiteiras.

Outro grave problema identificado no mapa é o impacto ambiental. Segundo o grupo, nenhuma das metas de despoluição foi alcançada, representando desperdício de recursos públicos e descaso com o meio ambiente. Na Baía de Guanabara, um dos cartões postais do Rio de Janeiro, a promessa era o tratamento de 80% do esgoto até 2016, contudo, menos de 50% foram efetivamente cumpridos. O mesmo aconteceu com a Bacia de Jacarepaguá, onde foram investidos mais de R$ 235 milhões em obras de despoluição, mas os projetos foram interrompidos em 2015 sem a sua conclusão.

O mapa dos jogos aponta ainda diversos casos de violação ao trabalho ocorridos desde o início das obras para as Olimpíadas. Em agosto de 2015, em uma das obras dos jogos, foram encontrados 11 operários trabalhando em condições análogas à escravidão, sem qualquer condição de higiene ou segurança. Foram realizados mais de 40 embargos em obras por desrespeito às leis trabalhistas. Onze também foi o número de trabalhadores mortos de 2013 a 2016 durante as obras de infraestrutura para os jogos – em Londres não foi registrada uma única morte.

Assim, o objetivo da campanha é alertar a população sobre o verdadeiro legado da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos: um alto custo para as camadas mais excluídas da população – na sua maioria negra e pobre. Como forma de continuar chamando atenção da população sobre os problemas mencionados, estão sendo organizadas diversas ações na cidade para o período entre os dias 1º e 5 de agosto.

O grande desafio do poder público dos países em desenvolvimento que almejam sediar megaeventos esportivos é democratizar os benefícios e oportunidades, conciliando os interesses do capital com os anseios dos mais necessitados. A grande questão é: será que isso é possível?


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Fabiano Santana dos Santos

Professor do curso de Administração Pública da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) – Campus Arapiraca/AL. E-mail: [email protected]    

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