A promulgação da lei que proibiu o uso de telefones celulares nas
escolas brasileiras, no início de 2025, marcou uma mudança expressiva na
rotina e na dinâmica de convivência dentro das salas de aula do país. A
medida, afinal, interveio diretamente no microcosmo do cotidiano escolar e
nos hábitos das famílias, disposta a enfrentar o desafio da dispersão digital.
Em um debate tensionado por paixões ideológicas e relatos
anedóticos, oscilando não raro entre o alarmismo tecnofóbico e o
deslumbramento digital, o recurso a dados e estudos robustos surge como
um esteio indispensável para qualificar a gestão pública nesse campo.
É sob essa ótica que ganham relevância as pesquisas coordenadas
pela Universidade Stanford, por meio do Centro Lemann e da iniciativa
Equidade.info. Ao cruzar a percepção direta da comunidade escolar com
uma avaliação do impacto causal nos resultados acadêmicos, os estudos
revelam que o veto aos aparelhos não se apoia em mero moralismo, mas em
uma política com efeitos mensuráveis na qualidade do ensino.
O primeiro estudo consistiu em um amplo diagnóstico nacional
realizado entre fevereiro e julho de 2025. Baseado em entrevistas
presenciais com mais de 3 mil estudantes, professores e diretores das redes
pública e privada, o levantamento mostrou que 83% dos alunos notaram uma
melhora direta na própria capacidade de atenção durante as aulas. O dado
demonstra que, na visão dos próprios jovens, o smartphone funcionava como
um elemento de distração constante, cuja remoção liberou um espaço
cognitivo vital para o aprendizado.
A estratificação dos dados revela que os desafios crescem à medida
que os alunos avançam nos ciclos escolares. Enquanto nos primeiros anos
do Ensino Fundamental o ganho de concentração atingiu impressionantes
88%, no Ensino Médio o índice recua para 70%. Essa clivagem se acentua
quando se observa o cumprimento da norma: apenas 2% das crianças
menores admitiram burlar o veto, em contraste com 55% dos adolescentes
que confessaram manter o uso velado do aparelho.
O diagnóstico é claro: quanto mais consolidado o hábito digital e maior
a autonomia do estudante, mais porosa se torna a eficácia da norma jurídica,
o que exige das direções estratégias pedagógicas de convencimento que
ultrapassem a mera punição burocrática.
A retirada abrupta dos smartphones expôs a vulnerabilidade
psicológica da juventude diante do ecossistema digital. Durante os intervalos,
44% dos estudantes manifestaram um tédio acentuado, enquanto metade
dos professores (49%) notou uma alta visível na ansiedade dos alunos. Ao
confiscar a distração, o veto deixou exposto um vazio comportamental. Como
observa o pesquisador brasileiro Guilherme Lichand, coordenador da
pesquisa de Stanford, o cenário exige que a escola reinvente o recreio com
propostas culturais e esportivas que devolvam sentido à convivência
presencial.
Fora do campo das percepções subjetivas, a segunda e mais recente
pesquisa do grupo traz o veredito das evidências causais.
Analisando o caso pioneiro do Rio de Janeiro –que restringiu o uso dos
aparelhos gradualmente a partir de 2023–, os pesquisadores cruzaram o
histórico de testes padronizados de alunos do Ensino Fundamental II. Eles
contrastaram o desempenho dos colégios que já barravam os celulares por
iniciativa própria com o daquelas instituições que mantinham diretrizes
tolerantes. O objetivo era isolar o impacto real da lei, medindo se o salto de
rendimento seria mais expressivo nas unidades submetidas ao choque mais
drástico de mudança.
O resultado foi inequívoco: o grupo que se adaptou sob a força da nova
regra deu um verdadeiro salto de rendimento. As notas avançaram 13,4%
em língua portuguesa e impressionantes 25,7% em matemática em relação
ao grupo de controle. Ao isolar as variáveis externas, o estudo provou que o
distanciamento das telas impulsiona diretamente o aprendizado.
Em última análise, a grande lição desses indicadores é que o veto ao
celular no ambiente escolar não encerra uma crise, mas inaugura uma
profunda reestruturação pedagógica. Trata-se de um desafio comunitário que
exige estreitar os laços no convívio analógico e apoiar o bem-estar psíquico
dos estudantes. Respaldado por evidências empíricas sólidas, o debate
sobre educação e tecnologia ganha a maturidade necessária para entender
que blindar a sala de aula é, fundamentalmente, salvaguardar o futuro.
Dimas Ramalho é vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

