Produzir milho ficou mais caro em todo o Brasil. Mas por que Mato Grosso, São Paulo e Paraná vivem realidades diferentes?

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Guaíra, 26 de julho de 2026 - 08h37

O produtor rural já percebeu isso antes mesmo dos levantamentos estatísticos. A cada safra, a conta para colocar uma lavoura de milho em pé fica mais pesada. Fertilizantes, sementes de alta tecnologia, defensivos, diesel, máquinas e juros passaram a consumir uma parcela cada vez maior do investimento. Os números mais recentes do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) apenas confirmam aquilo que o campo já vinha sentindo: produzir custa mais, exige mais capital e reduz a margem de erro.

O levantamento do Projeto CPA-MT mostra que o custo total da safra 2026/27 em Mato Grosso alcançou R$ 7.418,49 por hectare, contra R$ 5.869,12 na safra 2023/24, crescimento superior a 26% em apenas quatro safras. O custeio foi pressionado principalmente pelos maiores gastos com fertilizantes, defensivos e sementes, elevando também o custo operacional e o ponto de equilíbrio da atividade.

O dado talvez mais importante seja o preço mínimo necessário para que o produtor não trabalhe no prejuízo. Segundo o Imea, considerando uma produtividade de referência de 120,28 sacas por hectare, será necessário vender o milho por R$ 45,96 por saca apenas para cobrir o Custo Operacional Efetivo. Em outras palavras, qualquer queda na produtividade ou no preço recebido compromete diretamente a rentabilidade da safra.

São Paulo também sente a pressão

Embora não exista, neste momento, um levantamento estadual atualizado semelhante ao do Imea para a safra 2026/27, isso não significa que São Paulo esteja fora desse movimento.

O Instituto de Economia Agrícola (IEA) ainda não publicou uma planilha consolidada de custos para esta safra, enquanto a Conab continua sendo a principal fonte nacional de planilhas técnicas de custo de produção por cultura e região. A própria metodologia utilizada para definir os preços mínimos da Política de Garantia de Preços Mínimos considera justamente os custos de produção levantados pela Conab.

Na prática, produtores paulistas enfrentam as mesmas pressões sobre fertilizantes, defensivos, sementes e combustíveis. A diferença está na estrutura de produção.

Mato Grosso, Paraná e São Paulo não competem nas mesmas condições

À primeira vista, pode parecer estranho que estados produzindo a mesma cultura tenham custos e rentabilidades diferentes. A explicação está em diversos fatores.

Mato Grosso trabalha com propriedades maiores, elevada mecanização e excelente produtividade média, fatores que reduzem parte do custo unitário. Em compensação, enfrenta longas distâncias até os portos e forte dependência do transporte rodoviário.

São Paulo possui logística muito mais favorável, proximidade de indústrias consumidoras, cooperativas, usinas de etanol de milho e acesso facilitado aos mercados consumidores. Por outro lado, apresenta um dos maiores custos de terra do país, mão de obra mais cara e propriedades, em média, menores.

O Paraná reúne características intermediárias. Conta com excelente infraestrutura cooperativista, elevada tecnologia e boa logística, mas também sofre com custos elevados de produção e maior risco climático em determinadas regiões.

O crédito passa a ter um peso ainda maior

Com custos mais elevados, cresce também a necessidade de capital para financiar cada hectare cultivado. Isso amplia a dependência do crédito rural e torna os juros um componente cada vez mais importante na rentabilidade da atividade.

Quando o financiamento fica mais caro ou mais restrito, muitos produtores acabam reduzindo investimentos em tecnologia, atrasando compras de insumos ou diminuindo o pacote tecnológico, aumentando o risco de perdas futuras.

O consumidor também entra nessa conta

Existe uma percepção equivocada de que o aumento dos custos interessa apenas ao agricultor.

Não interessa.

O milho é matéria-prima da produção de carnes, leite, ovos, etanol, rações e centenas de produtos consumidos diariamente. Quando produzir milho fica mais caro, toda a cadeia sente os reflexos. Em alguns momentos, o produtor absorve parte desse aumento. Em outros, ele acaba chegando ao consumidor.

Mais gestão, menos improviso

Os números do Imea mostram que produzir milho continua sendo uma atividade economicamente viável, mas exige cada vez mais planejamento. A gestão dos custos, a compra antecipada de insumos, a comercialização estratégica da produção e os mecanismos de proteção de preços deixaram de ser diferenciais competitivos. Tornaram-se ferramentas indispensáveis para manter a rentabilidade em um cenário onde cada real investido precisa gerar retorno.

Mais do que nunca, o desafio do produtor brasileiro não é apenas colher bem. É transformar produtividade em lucro em um ambiente onde o custo cresce quase na mesma velocidade das incertezas.

 


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